quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O levantar vôo.


O coisas que andam no ar sentiu-se diferente. Depois do último post as coisas mudaram.
Um pouquinho mais amadurecido, mas ainda sim muito sentimental e escasso em teorias e conceitos, está numa morada diferente e o endereço é este aqui: http://cautemoutroblog.wordpress.com/

Te vejo lá!  :)

sábado, 24 de setembro de 2011

Lembrança, trauma e rito de iniciação.


Eu tinha a bochehca três vezes maior do que hoje só que meu corpo era três vezes menor, o que deixava o conjunto da obra um tanto quanto desproporcional. De acordo com depoimentos recolhidos de familiares e amigos, era uma criança calma. Podia passar horas inventando situações, pessoas e objetos imaginários, como se estivesse em estado de transe. Quando frequentava teatros infantis, dentre as crianças eufóricas, eu era uma das poucas que fixava o olho nos personagens fantásticos e se concetrava na história. Por não ter irmãos e nem primos com idades próximas à minha, inventava alguns amigos imaginários. O número de amigos imaginários que surgiram era tão grande que eles brigavam por disputa de melhor amigo. Tudo era muito calmo até que um dia a escola que estudava nos levou ao MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo. Eu devia ter sete ou oito anos de idade. 

Anos depois, duas obras de arte que tinha visto nesta exposição haviam se fixado em minha mente: a obra do porco empalhado de Nelson Leirner e o auto-retrato de Antônio Dias, ambas produzidas nos anos 60.  
Raramente lia ou via alguma coisa na TV que pudesse remeter a essas obras, mas por algum momento, achei que tinha inventado o porco ou coisa parecida. O que me pergunto até hoje é como e por quê tais obras me marcaram tanto. Talvez por ser tão pequena vendo coisas tão chocantes? Afinal, é um porco empalhado dentro de um museu; o outro é um auto-retrato diferente de um homem. Mas esse homem, pensou a bochechuda na época, deve ser mesmo muito esquisito pra se representar assim. Já naquela idade comecei a indagar sobre porque um artista, ou seja, gente grande muito importante e adorada por outras gentes grandes, colocaria um animal naquela situação. Sobre o retrato de Antônio Dias, não cheguei a pensar que o cara era maluco ou coisa do tipo, mas muito me chamava a atenção e me gerava dúvida do por quê se retratar dessa forma. Afinal, o auto-retrato tinha tudo o que um auto-retrato tem: rosto, braços, mãos, corpo; só era um pouco diferente dos auto-retratos que tinha visto.

A infância se sucedeu como havia se sucedido até então: de forma pacífica. O fato de ter gravado tais obras em minha cabeça não atrapalharam noites de sono, nem os estudos e nem as relações com outras crianças. Eu não ficava rememorando essas imagens e nem pensando nelas conscientemente o tempo todo. Fiquei anos sem imaginá-las. O problema disso tudo é que levar uma criança pequena num museu de arte moderna, arte moderna brasileira - importante ressaltar, faz com que suas 'doors of perception' se abram. E o trauma que isso pode gerar, por mais pacífico que ele possa se manifestar, trouxe grandes influências.

Minha cabeça já não era mais a mesma. Me voltava quase todos os dias ao caderninho de folhas brancas e ao giz pastel. Rabiscava cenas do cotidiano representando os familiares de forma desproporcional - mas mantendo na obra, meu sentimento fiel em relação a eles. Na adolescência, ouvia rock pesado enquanto produzia grandes telas de tinta à óleo, como forma de exaurir a efervescência da idade em formas abstratas e em cores fortes. Pode parecer tudo muito normal, mas dentro de mim, dentro da minha cabeça tudo fervilhava.







Foi nesse período de transição entre a adolescência e uma fase mais madura (embora eu não concorde com a fase da qual nossa sociedade chama de 'puberdade'), que comecei a frequentar ambientes artísticos, por assim dizer, alternativos. Anotava num caderninho algumas idéias malucas para executar num futuro próximo, lia livros, via filmes e coisas do tipo. Começava aqui um rito de iniciação, do qual permaneço até hoje (e do qual pretendo sair assim que me for favorável), que chamo de caminho para a transcendência.

Hoje tenho pressa em realizar tudo que adquiri como inspiração, desde meu primeiro choque artístico, lá no MAM. O rito de passagem torna-se necessário, então, no sentindo de levar com calma, sem perder a excitação da criação, o caminho para a transcendência. Caminho provavelmente percorrido por Leirner e Dias. Não quero aqui colocar artista plástico nenhum em pedestal; mal conheço bem a obra de ambos a ponto de fazer uma crítica coerente. Mas quero dizer que na vida, algumas coisas vem sem avisar e se incorporam a nós como que imperceptível. E, se de alguma forma, algo foi apropriado a mim naquele momento, e fez parte do meu inconsciente até então, é porque alguma inclinação a isso eu tenho. Também não quero dizer que as obras fizeram grande influência sobre minha pessoa, mas que foram pontos-chave para tudo que está acontecendo hoje, tanto dentro de mim, quanto na alma de qualquer ser humano que se deixa levar por uma expressiva, sentimental e crítica obra de arte.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O silêncio.

Há uma certa atmosfera comovente, saudosa e alegre que esse vídeo parece transmitir. Por que será? Talvez ele tenha aquela atmosfera misteriosa que paira sobre todos os geeks  a ponto de twitarem tanto o vídeo, que ele chega a ter sucesso passageiro em programas de TV; talvez pelo ritmo agradável da música, um tanto quanto pobre de notas, e por isso universal, que pode servir pra qualquer propaganda de cartão de crédito ou de maionese light; mas acho que o principal, o que realmente possa cativar neste vídeo, é a simplicidade.

Faz alguns dias que tenho fugido do silêncio ouvindo qualquer tipo de música que minimamente me agradasse. Cheguei a cometer o atentado de deixar a TV ligada.

Este silêncio, porém, devia fazer parte de um momento de reflexão e não de um momento de fuga. Então lembrei-me de poucos dias atrás, quando pensava sobre o silêncio. Quando alguém falece, esse silêncio aparece. Você observa as ruas, as coisas e as pessoas e tudo parece estar estranhamente calmo. Descobri que isso não é simplesmente uma conspiração do universo ou mera coincidência;  na verdade, os barulhos estão lá da mesma forma que sempre estiveram, só que a sensação de uma ausência faz com que você repouse e reflita sobre o silêncio. Situação essa em que poucas vezes descobrimos que ele está lá, pairando sobre o barulho – e sentimos isso inconscientemente.

Também não é fácil aceitar certas mudanças. E contraditoriamente, aceitá-las é como a quebra de um longo silêncio - o que é bom de vez em quando, quando um ciclo se encerra e é necessário começar outro. Aos poucos talvez seja possível conciliar com os dois lados da moeda: silêncio-e-quebra de silêncio.

Esta simpática banda de dois – do vídeo bonitinho-, Birds of Lindigö, fez minha alma sorrir. Em outro vídeo, a garota também saltita nesses bloquinhos de pedras - esses stompstones - com seu acompanhate ao violão. Dessa vez eles tocam  um gracioso cover da música “Bourgeois Shangri-la” de Miss Li (música que tem sequências de notas muito similares a do vídeo acima). Abaixo, segue um vídeo ao vivo da própria Miss Li para mostrar como ela impediu uma situação de silêncio provocada pelas consequências do próprio corpo humano, a rouquidão. Com dor de garganta e voz rouca, ela não deixou de cantar e gritar lindamente.

domingo, 19 de junho de 2011

A volta do ser

A tempestade

Depois da última postagem no blog, em dezembro do ano passado, meu ser saiu de férias para nunca mais voltar. Enquanto ele percorria os quatro cantos do mundo, me encontrava abandonada. Sem ser, sem alma, fiquei desamparada, fria e superficial. Empurrando a vida com a barriga e me arrastando sobre os pés, os meses foram passando. Mas o ser sair de sua morada não é qualquer acontecimento. É algo que exige muita atenção. E mesmo assim eu mal sabia o que estava acontecendo comigo.

É como uma tempestade. De repente vem um raio, um trovão e você está lavando sua alma. Olhando assustada pra pele molhada, me dei conta de que precisava mesmo de um susto, um vômito, um ah!

 

O SOL

O ser retorna silencioso. Entra pela janela numa manhã de domingo, despretensioso. Invade o corpo, o corpo se estremece. Você está de volta. Mais calmo, mais tranquilo.

Para ilustrar a sensação, aqui vai um pequeno trecho de uma dança butoh. Onde o ser é mais que ser. Ele é estar, ele simplesmente é. E ser por ser, estar por estar, é a pura confirmação da existência e da vida.

 

 

E para completar, a música do Secret Garden. Bem leve…

"Um jardim no qual nós pode buscar refúgio quando tempos são ásperas ou reformar-se a alegria ou contemplação".

 

A leveza do ser, pela primeira vez, se torna totalmente sustentável. Como já disse Drummond, “os ombros suportam o mundo e eles não pesam mais do que o peso de uma criança.”

domingo, 26 de dezembro de 2010

Crônica acrônica de Natal

Passo a tarde do dia 24 preparando pratos monumentais. A salada que foi com manga ano passado, esse ano vai com abacate; o frango com batatas vira frango com pimentão e assim vai. O pavê é o mesmo: só acrescentei uma camadinha em cima. Pra dar uma mudada, né? Ano passado a prima tinha 18 anos e esse ano, 19. Como cresceu! As tias envelhecem, os tios bebem cada vez mais cerveja. As crianças que corriam no quintal hoje jogam videogame. E incrível!, tudo é muito igual.

Minha vida, em um ano, mudou muita coisa. Mas o natal é totalmente acrônico. Apesar das mudanças, ele é imutável.

A tentativa, cansativa e maçante mas que deu certo até agora, de manter uma tradição longínqua de famílias específicas que vieram de específicos lugares, nós que por centenas de anos, nascemos católicos por inércia, essa tentativa é pra manter a família unida? É uma tentativa de manter uma tradição?

E tradição necessariamente está ligada a reunir uma família de sangue? Uma reunião da qual várias peças, mas com este detalhe fundamental de que cada peça vem de um quebra-cabeça diferente, se juntam na tentativa de montar um quebra-cabeça único. É essa tradição que queremos manter? E por quê?

Japoneses montam árvores de natal ao estilo europeu. Japonês tem natal? Meriikurisumasu, eles dizem. What?!  Brasileiros, deixemos de lado nossos maravilhosos coqueiros que enfeitam as praias que nos fazem a fama, e vamos pegar nossos pinheiros, nossa frutas vermelhas (esqueçam também a banana e manga, por favor) e vamos vestir nosso negro de branco, casacão e barba; vamos vestir nosso trabalhador de aposentado sorridente e abonado. Vamos passar calor…

Não é crítica, é apenas uma reflexão. A avenida Paulista ferveu ontem. Ferveu de católicos, cristãos, budistas, espiritistas, judeus, ateus, ortodoxos; famílias, grupos de amigos, casais homossexuais, a tia que veio de Campina Grande também tava lá, os modernetes da Augusta também, os cult do teatro e do jazz – pasmem! – também estavam lá. O que nos levou até lá?  Talvez uma ressalva no Jornal da Tarde da Rede Globo (de que seria o último dia de enfeites) tenha suscitado uma esperança última de fazer um último pedido ao Papai Noel. Talvez uma esperança perdida de que o Natal seja aquela época do ano que sabe manter uma tradição. Será?

Na véspera, ajeito as bolas vermelhas da árvore de natal, ligo os pisca-piscas e aguardo os convidados familiares chegarem. Coloco Caetano no toca discos…

De onde nem tempo, nem espaço
Que a força mãe dê coragem
Prá gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas do nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne...

O de sempre começa. Mas posso afirmar que apesar de igual, esse ano foi diferente. Por quê? Coloquei amor no que fiz? Deixei de lado questões chatas e mergulhei na comemoração? Estou crescendo, me acostumando?

No dia seguinte caminho pelas ruas do Peruche a procura de uma resposta. As pequenas casas, com seus grandes carros tem suas cadeiras de praia – que queriam estar na praia – fazendo da calçada sua sala. As crianças correm pela rua, os bebês somente de fralda escapam dos braços das mães. O churrasco tá saindo, a cerveja tá gelada e o sertanejo (ao fund, em outro recinto, há sempre um funk) tá tocando. Dou benção à minha vó e ela reza o Pai Nosso antes de partir pra tragédia grega que é o almoço de Natal. Me engasgo nas palavras, não sei rezar. Não nessa língua.

 

Casa da dona Josefina, 25 de dezembro de 2010.

domingo, 10 de outubro de 2010

I just believe in me, Yoko and me.

Cumprindo a parte burocrática e clichê do dia, hoje é o 70º aniversário de John Lennon. Do cabelinho tigela, paletó e ié, ié, ié à barba, cabelão, óculos redondo e give peace a chance, ele não deixou de ser um gênio, um poderoso ativista pela paz e principalmente, um grande artista. Isso é notável. Nosso cérebro já está lavado com essas informações. Tão lavado que a paz, o amor and all that stuff, são, hoje, consideradas, ainda mais por nós, jovens antirevolucionários, como foolish stuff. No, we can’t.

Ele não é Jesus, assim como Jesus não é Jesus (ou Deus, se preferirem). Mas assim como Jesus, como Hendrix, como Luther King, como pessoas normais, ele deixou uma mensagem. Além de ter marcado uma geração inteira (e apesar de tudo, repercurtir hoje, de forma um pouco triste, um sentimento nostálgico negativo, em alguns beatlemaníacos pós modernos), o que  pregava não vinha somente dele. O povo, na verdade, se traduzia em sua figura. (Sem, claro, desmercer outras figuras marcantes como, por exemplo, Bobby Seale, entre muitos outros ativistas e artistas dos quais eu não saberia citar.)

O hairpeace, o make love not war, o power to the people, foi produto de um momento político e histórico acontecendo em um pedaço muito pequeno do mundo (não que o estrago que isso causou fosse de tamanho semelhante). Que forma isso repercuti no hoje e no agora? A meu ver, se repercuti em um asco. Parece-me que nós, jovens, criamos uma aversão ao amor livre, à paz, bla bla bla. It’s bullshit!, podemos dizer.

Se somos jovens da classe média e média-alta do Brasil (e aqui digo por São Paulo, que é onde moro), vivemos uma nostalgia cega de ouvir os grandes cérebros da tropicália, defender uma esquerda política xis,  fumar maconha numa casa chique nos altos do bairro pinheiros, tentando, talvez, copiar um estilo de vida mais ou menos nostálgico e europeu. Ou vamos à rua Augusta à procura de cerveja barata, com nossas calças apertadas, nossos tênis americanos, sejamos punks ou emos, tentando copiar, quem sabe, um estilo de vida boêmio americano ou inglês. Queremos estudar, mas odiamos a instituição escolar, política é chato mas ao mínimo, eu tento me informar. Os mais corajosos se engajam numa causa sem fundo dentro de algum partido. E no fim das contas eu quero trabalhar e reproduzir o modelo de família classe média patriarcal da qual eu vim mas atualmente digo que eu tenho que fazer o que eu gosto.

Se futebol, religião e política não se discutem, a arte é melhor nem existir. Não se pode colocar um assunto como esse à mesa, afinal, não somos jovens com sentimento de mudança, de criatividade, de sonhos, de grandes perspectivas para um futuro melhor. O que é o futuro? Vamos viver o aqui e o agora! Sim, porque somos meros reprodutores de culturas estrangeiras, somos escravos do consumismo, do mercado de trabalho, do diploma, das bolsas da fapesp, das marcas de cerveja. Somos socialmente induzidos a sermos no mínimos simpáticos. “Gente boa aquele cara”, nós dizemos.  Temos que ser, por mais fora do padrão que você acha que é, socialmente aceitáveis. Não somos polêmicos, não fazemos arte, não lutamos por nada plausível.  A discussão é aberta, parece que é tudo lindo, democracia e o diabo a quatro. Afundamos num buraco onde tudo é possível.

Não quero enfatizar que a juventude dos anos 70 foi muito melhor que a nossa. Não quero dizer que vivemos totalmente sem perspectivas. Mas se é tudo liberado, então demos à paz uma chance? Tudo que realmente precisamos é só amor? Tem certeza? Não. Nunca foi, nem entre a juventude que pregava isso. Mas convenhamos que o sentimento da época era mais forte até por motivos óbvios de conjuntura histórica.

Hoje tudo é tão possível que não permitimos nada, a carapuça da ditadura serviu na cabeça dos rebeldes e agora a estamos vestindo. Se você que hoje ouve Imagine (não na versão do Sir Elton John, por favor) e disfarça aquele nó que dá na garganta porque sabe que sentir esse nó é cafona por demais, reflita. Nao é pra você virar neo-hippie, vegetariano ou eco chato. Apenas, quando estiver preso num trânsito, preocupado em pagar suas contas num futuro próximo e entregar aquele trabalho que é cópia do que Nietzsche, Marx e Freud já pensaram por você, reflita. Pense no abstrato, no subjetivo. Faça uma versão eletrônica de Imagine, mas cuidado pra não ficar famoso (porque provavelmente a versão vai ficar um lixo), pense na cultura do desprezo e da luxúria que vivemos hoje (ou que, pelo menos, desejamos muito alcançar) e vamos continuar vivendo.

Não sei que saída tomar. A arte talvez, seja uma saída da qual eu acredito. If you want to be a hero, well just follow me.

Obs.: Este texto foi escrito sob um momento de euforia por parte da escritora.

sábado, 11 de setembro de 2010

Ressuscitar.

Me veio em mente esse termo quando lembrei da morte e daquele certo clichê de que morte nem sempre é um fim mas talvez um começo. E reviver, ressuscitar também não pode ser um novo começo? Sim. Um começo de um fim. De um começo.

O fim do começo do fim aconteceu no final do volúvel ano de 2008. Ano que deixei de ser outra para voltar a ser eu mesma. 

 

o amor

Lembro-me bem que foi quando quebrei meu coração em mil partes que descobri que amar não era aquela obsessão; que amar é fácil, difícil mesmo é cuidar. Eu mesma, sem pensar, ocasionei uma explosão de amor. Explosão destinada ao fim. Explosão que, pelo lado positivo, me permitiu que pudesse amar novamente só que sem o peso que me causava o amor anterior.

Leve, agora, sou livre. E eu sei, porque eu sinto (e já senti uma vez), e isso ninguém pode me contrariar, que eu sei bem que sinto e o que é que sinto. Não por saber explicar em palavras mas por sentir algo que não está nem dentro de mim, nem exterior a mim e muito menos superior a mim. É algo em estado meditativo, do presente, do agora, forte e de muita luz. 

 

a morte

Ainda no estranho ano de 2008 me encontrei, conscientemente pela primeira vez, com a morte. Comigo ela veio de repente mas rastejando ao longo do meu sono por uma madrugada mal dormida. Depois foi aquele social de velório e coisa e tal e o enterro foi a garantia de que não queria ficar ali sobre ossos. Fui pra casa; chorar aos prantos, claro. Não é todo dia que morre alguém que você gosta tanto.

Não era amigo e muito menos de sangue. Mas era ela. Mal sabia que tinha um lugar na minha vida. Mas sim, tinha e sempre teve. Desse jeito que a vida é, só fui perceber quando ela se foi. Enquanto ela ainda estava aqui passamos por tudo juntas apesar da grande disparidade de idade e de vida social.

A cicatriz foi formada. Mas cortes são coisas necessárias. Uma cicatriz de um amor que a morte fez renascer.

 

Um nascimento só pode vir da morte e do amor. O renascimento é esse ciclo de amar e morrer e, muitas vezes, mais do que imaginamos, de morrer e depois amar. Todos os dia amando e morrendo. Esse ciclo é o que constrói o ser.

 

É assim que renascemos, amando e morrendo.

sábado, 12 de junho de 2010

Poesia do movimento.

   As palavras, ás vezes dizem demais. São genericamente consideradas como o ápice da comunicação e da compreensão humana. Porém, há certa contrariedade nisso, ou seja,  mesmo sabendo ser a palavra um ponto forte da comunicação, é  reconhecível que nem tudo é perfeitamente comunicado e compreendido através dela. Porém, a questão não é exatamente essa

abstrair

   Seja falando ou escrevendo, palavras são, muitas vezes, mais objetivas que o movimento.  Mas há um exemplo do uso das palavras que, pelo menos a meu ver, é muito fácil perceber a subjetividade que forma um movimento. A poesia hai-kai, na simplicidade de suas três linhas, mostra muito em poucas palavras. Através da cultura oriental do micro, as coisas são reduzidas no intuito de serem sintetizadas, fáceis de guardar, só que num conceito diferente: de que com pouco se pode fazer muito, de que no micro vê-se o macro e assim, chegando à idéia de que no vazio pode haver completude.

sonho colorido

o sol dança com a lua

você comigo

Carlos Seabra

Vamos embora ver

A neve caindo

De cansaço

                      Estas pimentas:

                      Acrescentai-lhes asas

                      E serão libélulas.

Ah, o velho lago.

De repente a rã no ar

E o baque na água.

                      Molhadas,

                      Inclinadas:

                      Peônias sob a chuva.

Admirável

Aquele que diante do relâmpago

Não diz: a vida foge.

Bashô

Quietude --

O barulho do pássaro

Pisando em folhas secas.

Ryushi

- Quantas maritacas!

O estouro revela

um sorriso contido.

Rafael Noris (blog Hai-kais)

 

 

do sentimento pra fora

   Pina Bausch, mais do que com palavras, parte do movimento para expressar o sentimento. Como ela mesma diz, "o que me interessa não é como as pessoas se movem, mas sim o que as move”. Então, uma ponte com a dança Butoh pode ser estabelecida uma vez que, em uma entrevista, Kazuo Ohno - recentemente de volta ao seu mundo das sombras, é uma  grande perda e também uma grande admiração como ser eternamente brilhante na arte Butoh -  diz:

Cada dançarino tem seu próprio butoh. Não existe um método, porque a dança é a expressão do interior de cada um. Por isso é singular em cada pessoa. Para mim, o butoh é, com palavras simples, apreciar a vida, minha e dos outros.

   Sem mais palavras, deixo aqui algumas imagens em movimento. Imagens que podem renovar a alma. Ou, pelo menos, renovaram a alma de quem interpretou. Ativando o mínimo de sensibilidade que há em cada um de nós e com paciência e atenção, é possível sentir o que não é falado através dessas novas danças, dessas performances.

   No cinema, uma coreografia de Pina Bausch foi utilizada em Hable con ella, de Almodóvar. E no recente e maravilhoso filme alemão, Hanami – Cerejeiras em Flor, da diretora Doris Dorrie, a dança aparece como condutora essencial para canalizar os sentimentos dos personagens.

Coreografia de Pina Bausch em Hable con Ella

Coreografia de Kazuo Ohno para o filme Hanami - Cerejeiras em Flor
 
  
   Para acrescentar, deixo alguns vídeos com danças butoh que tocam o fundo da alma com sua frieza, com seu figurino cru, com rostos fantasmagórico. Esse tocar sombrio que vira fogo e arde, é porque toca – e é essa a verdadeira chave dessa linda perfomance – o verdadeiro sentimento do ser na sua maior distração de um movimento perdido.

Grupo Sankai-Juku, coreografia de Ushio Amagatsu.

Performance de Ikeda Carlotta, dançarina.

Performances de Kazuo Ohno.

 

Links: “A Experiência de Assistir a um espetáculo de Butoh” – Made in Japan:   http://bitw.in/w2  e  Pina Bauch: tudo é dança:  http://bitw.in/w3

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Fraternidades.

na pele

É exatamente nesta hora do dia que tenho que me esconder numa pequena fresta que faz sombra no meu quarto, onde não dá pra sentir o sol batendo. Olho em volta e vejo os objetos meio amarelo-acinzentados. Um objeto apenas, com um vermelho bem vivo, se destaca: uma camiseta está pendurada na minha cabeceira.  Parece que ela agora descansa. Enquanto a olho descansar, relembro sua trajetória.

Havia feito alguns pães com tomate, queijo e orégano no forno. Uma delícia. Bebíamos vinho, fazia frio, não escutávamos música. Logo nos trancamos no quarto, logo nos jogamos na cama, logo nos envolvemos como se amanhã fossemos nos separar em quilômetros de distância (e íamos?).

Aqueles gestos prometiam (e era o que eu desejava) que esse ritual (de poder ficar com quem gosta por muitas e muitas noites) não acabasse nunca mais. Começou com um beijo rápido, carícias desesperadas. As roupas já estavam há muito tempo espalhadas pelo chão. Mas ele ainda vestia aquela camiseta vermelha, linda e que naquele exato momento lhe caía muito mal. A arranquei de seu corpo e joguei na cabeceira da cama. Pronto, ali a camiseta ficava bem melhor.

E ficou tão bem ali que agora, passado quase um dia depois daquela noite, com o quarto todo iluminado pela luz amarela-acinzentada das quatro da tarde, ela chamava toda minha atenção. Eu a olhava com ternura e ao mesmo tempo com desejo. O sentimento que ela me despertava seria mais pela cor - da paixão, quem sabe –ou pelo suor, pelo amassado, pelo nosso cheiro, pela forma como tinha sido arrancada, jogada e de como ela teria sido esquecida ali a noite toda?

 

 

no contato

Queria apenas ter como achar cinco reais e entrar naquele bar sem peso na consciência (e no bolso). Queria achar muito mais que cinco reais e reunir todo mundo pra entrar comigo naquele bar. Sim, naquele muquifo, naquela casa meio cambaleante, mas com ambiente intimista. Intimista principalmente em noites como essa: noites de jazz.

Mais uma vez me encontrei sem companhia pra uma noite de jazz. Poderia muito bem ir sozinha. Mas não quis, não tive coragem. Não foi fraterno da minha parte e nem de ninguém.

Ao sair caminhando, desiludida, meus pensamentos foram longe. Me senti oposta em relação a personagem de Iréne Jacob em A Fraternidade é Vermelha de Kieslowski. Suas relações sociais não seguem um ritmo muito lógico (a princípio). O filme, entre outros muitos assuntos, abstrai sobre o tema ‘comunicação’ e de como ela é entrecortada, distorcida e até manipulada. E mesmo assim, nada é impedido de que as coisas aconteçam como deveriam acontecer. As relações da personagem formam uma teia. O ponto que eu queria chegar é que em alguns momentos sinto que as minhas formam uma linha. E talvez, as relações fossem mais fortes e sinceras se as fossem os próprios nós dessa teia. 

A personagem a procura de seu convidado e recente amigo.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Paciência.

Eu não tenho paciência de esperar passar uma chuva forte por mais de 10 minutos. Muitas das vezes em que isso ocorreu, acabei andando, impaciente e feliz, recebendo as gotículas gordas de água poluída. Hoje consegui superar um pouco essa falta de paciência. Parei em um lugar seco para poder escrever este texto e relembrar, com todos os detalhes, o dia em que lavei minha alma.

O dia em que lavei minha alma.

Aconteceu ano passado, no chuvoso mês de setembro. Já estava morando em Marília e era um daqueles famosos finais de semana solitários. Resolvi ir ao cineclube, num pacato final de domingo, ver não sei que filme. Estava calor. Escolhi logo um lugar abaixo do ventilador de teto para que pudesse me refrescar mas depois pareceu inútil, o calor vencia qualquer tentativa de refresco. O filme, que deveria ser muito interessante, passou tão rápido que nem vi a hora correr. Ao chegar na porta pra ir embora, vi um amontoado de pessoas. Elas cobriam minha visão e não pude entender o que se passava lá fora. Como teria que sair mesmo, resolvi passar pelas pessoas pra sair. Então fui tomada de choque e brequei, assim como um carro freia bruscamente rangendo os pneus.

Chovia torrencialmente de forma que era impossível ver o outro lado da rua pois tudo estva coberto por um manto molhado. O chão do asfalto recebia, como fortes chicotadas, os pingos pesados que caíam muito rápido. A luz que saía dos postes ficava embaçada e os carros passavam devagar. Não se avistava uma alma na rua. O barulho da chuva soava como o som de uma orquestra que toca agressivamente os instrumentos. O ar tinha aquele cheiro de grama molhada, que entra pelas narinas e te faz delirar. Um ventinho suave e gelado soprava no rosto de preocupação de todos aqueles que esperavam uma trégua da chuva pra poder sair. Eu também esperava, mas estava ficando impaciente.

Estava carregando três coisas nas mãos. Dobrei a programação do cineclube e coloquei dentro da calça. Discretamente guardei o celular no decote da blusa e apertei bem forte as chaves de casa na mão esquerda. Joguei alguns fios de cabelo pra trás, ergui um pouco a barra da calça. Usava chinelos. Respirei bem fundo. Olhei pra todos envolta. Ainda permaneciam preocupados e a feição de curiosidade e mais preocupação apareceram em seus rostos quando viram meu preparatório. Respirei fundo novamente, olhei pra cima e vi a chuva. Esbocei um leve sorriso, fechei levemente os olhos e então saltei pra calçada. Escutei os ruídos de surpresa e indgnação atrás de mim. Mas continuei rindo e andando. O processo de lavagem estava a começar. Olhei pras pessoas com cara de criança levada, como se estivesse dando um “tchau, vocês não sabem o que estão perdendo” e atravessei a rua. As pessoas que se abrigavam embaixo de toldos de estabelecimentos fechados olhavam com surpresa. E assim fui indo, a caminho pra casa. A caminhada não deveria durar mais de 10 minutos.

A chuva molhava meus cabelos e minha roupa. Meu pé estava completamente encharcado. As gotas não cansavam de escorregar em mim. Então, parei, fechei os olhos e senti minha alma sendo lavada. Sensação única e necessária pra quando se pensa que tudo está perdido.

Texto escrito em 16 de Março de 2010.

chuva (12)

chuva (33)

chuva

domingo, 4 de abril de 2010

Simplicidade?

Quando fiz esse blog, queria coisas simples, desejava coisas simples. Consegui isso com pouco sucesso. Onde está a simplicidade neste blog? Acredito que o blog reflete e segue mais ou menos o meu estado de espírito e, fazendo um breve histórico da minha vida desde a data em que criei este blog, percebi que o reflexo, tal qual como o espelho, é evidente.  Procurei por todo esse tempo a simplicidade. Mas simplicidade não está em algum lugar que não seja em nós mesmos. A quem quis enganar? A partir disso, não se trata mais só de simplicidade, se trata de outra questões da vida também. Quem quero ser? Aonde quero chegar? Por que preciso ser algo? E por que tenho que chegar a algum lugar? Não sei.

Respiro fundo. Por um momento sei quem sou. Mas somente por frações de segundo. Meu ser está numa profundidade muito além de onde me encontro. Todos tem seu ser muito além de onde se encontram. O segredo talvez seja chegar a esse lugar profundo que, em questões de distância - apesar de parecer muito longe –, não está nem a dois passos de onde estamos. A simplicidade não está, ela é.

terça-feira, 23 de março de 2010

Beijarte (e fazer sentido).

 

Chagall

 

 

Klimt

 

 

           

Rodin

 

 

                      

Doisneau

 

 

 

Bresson

 

 

 

“Beijar-te e fazer sentido,

querer-te e me sentir feito um foguete

que prosseguiu subindo pra Marte,                  

onde te vi sorrindo…”        

sábado, 13 de março de 2010

Solidão, salada e calor.

Este é um típico final de semana mariliense em que acordo depois das 10, meio zumbi, tranquila e alegre. Minha companheira de apê viajou no dia anterior para a casa dos pais e assim me encontro, sozinha.

Lá fora, o sol ardia. Devia estar fazendo 33°. Aqui dentro, creio eu, o calor estava mais insuportável ainda. Então a fome bateu. Passava do meio dia. Abri a geladeira: ah, não! Esqueci de fazer arroz. Tinha um teco insgnificante de queijo, um filézinho feio de frango, algumas folhas de alface. Hm, espera aí! Dá pra fazer algo muito bom…

Assim surgiu (bom, já deve existir mas deixa eu brincar, vai…) a salada mais gostosa que eu já fiz.

Salada pseudo picante com frango

Ingredientes
  • Folhas de alface (de preferência a crespa ou a mimosa)
  • Queijo em cubinhos (queijo mussarela ou branco)
  • Peito de frango grelhado e desfiado
  • Pimenta calabresa
  • Limão
  • Azeite (um azeite bom, por favor)
  • Pão amanhecido

Corte o pão amanhecido em cubinhos, jogue azeite em cima (dá pra por orégano também) e leve no forno até ficar mais ou menos crocante. (Não me pergunte o tempo exato.) Enquanto isso, após lavar bem as folhas de alface, adicione os cubinhos de queijo, o frango desfiado e uma pequena pitadinha de pimenta calabresa. Retire o pão do forno e adicione na salada. Depois é só temperar com muito azeite, um pouquinho de sal e expremer um pouco de limão. Misture bem e prontinho!

Obs.: Nessa receita, o queio usado foi, na verdade, um queijo que trouxe de Aracaju chamado Requeijão crioulo. É um queijo com aparência bem amarelada e tem um gosto leve semelhante ao do queijo prato.

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Após o saudável almoço, fui até a casa de uma alma resfriada com intuito de preparar um chá. Mas nada deu certo. E ainda mais que chá com esse calor não ia descer bem. No final das contas acabei fazendo um suquinho de limão com gengibre. Ficou uma delícia. Sirva bem gelado!

Assim, nossa saúde agradece e ao mesmo tempo nos saciamos com deliciosos pratos. Já faz um tempo que estou com intuito de tornar minha alimentação mais saudável e agora sinto que consigo colocar finalmente em prática. Já passei no mercado hoje e comprei alguns legumes e frutas para fazer mais experimentações culinárias como a de hoje.

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Minha manhã solitária foi resolvida assim, com uma deliciosa refeição. O calor foi resolvido com um belo banho bem gelado. E tudo se resolve quando uma música boa está tocando. No caso, tocava Juzzie Smith. Meu novo vício musical. Ele é demais! Confiram.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Carnaval para ouvidos agradecidos... ou não.

Ouvidos agradecidos

“Não ao desperdício! Não ao desperdício!” É o que brada uma das faixas do álbum Zona e Progresso de Pedro Luís e a Parede, de 2001. Com um som que mistura samba, batucada e rock, PLAP conquista os ouvidos também com letras inteligentes e poéticas.

Este é o único álbum que ouvi inteiro. Mas no próprio site tem todos os CDs disponíveis pra escutar (infelizmente não dá pra baixar todos). Escutei algumas músicas de outros álbuns e só continuei gostando mais. Eles já gravaram com várias participações especiais como as de Adriana Calcanhoto, Lenine, Ney Matogrosso, entre outros.

http://www.flickr.com/photos/renerotterdam/

Além do mais, eles tem um projeto de percussão muito interessante! É a Oficina Monobloco. Tomando como ponto de partida o samba e seus característicos instrumentos, eles partem para a uma criação ampla de novos sons misturando outros estilos e novos instrumentos e dão oportunidade a novos talentos. No site do projeto é possível ouvir algumas músicas que animam qualquer dia chuvoso quando se está com saudades do carnaval.

Outra produção musical deliciosa de ouvir vem lá de Recife. É a Orquestra Contemporânea de Olinda. Conheci por acaso vasculhando um blog que acompanho -muito bom, por sinal – e logo baixei o CD. Quando ouvi me apaixonei. Com as letras das músicas e o som diferente da orquestra, logo me imagino descendo alguma ladeira de Pernambuco em direção a praia, no horário do pôr do sol e indo pra algum bar com roda de samba, cerveja e bolinho de charque. ;)

Goiana por Fundarpe. http://www.flickr.com/photos/fundarpe/

Aqui em baixo está o clipe da música Ladeira. Bom clipe e boa música!

…ou não.

A banda Parangolé, hoje com um mega sucesso, surgiu em Salvador em 1997. Assim como Plap e Orquestra Contemporânea de Olinda, ela mistura diversos ritmos como samba, axé e pagode.

Carnaval

IMG_0898: 'Monobloco', Fundição Progresso, Rio de Janeiro por cmmorel.   http://www.flickr.com/photos/cmmorel/

No Rio de Janeiro, o Monobloco faz parte do carnaval de rua desde 2001.

Em Recife o Carnaval tem muitas atrações. É por isso que o carnaval lá recebe o nome de Carnaval Multicultural de Recife. Um dos muitos pólos desse carnaval, onde se destaca a Orquestra Contemporânea de Olinda, é o festival RecBeat que recebe diversos artistas de diversas localidades do mundo e que não estão necessariamente relacionados ao som do carnaval. Com certeza, só de ver a programação, esse festival é cheio de novas informações pra quem está de ouvidos abertos para novas experiências musicais. Vale a pena conferir no site do festival mais informações.

RecBeat 2009 - Segundo dia por lumocoletivo. http://www.flickr.com/photos/lumocoletivo/

Mas a sensação do carnaval mesmo, presente em todas as localidades do Brasil e talvez do mundo, foi o hit Rebolation.

(Destaque para o senhor de bermuda amarela.)

Pensando que eu passaria um carnaval longe de sucessos populares, me refugiei em Tiradentes (MG) com mais dois amigos. A cidade é conhecida pelo carnaval tranquilo e tradicional mas achei bem fraco os blocos de rua e suas marchinhas. Foi dada maior atenção ao palco principal, montado no meio da praça do centro da cidade, onde uma banda animada tocava as músicas de maiores sucessos. Com um chifrinho rosa reluzente na cabeça e um copo de frozen vodca na mão, dancei e cantei todos hits do verão.

rebolation trash

Links

MySpace Orquestra Contemporânea de Olinda

Orquestra Contemporânea de Olinda Site Oficial

Batuque Brasileiro

Plap Site Oficial

Projeto Monobloco

MySpace Plap

Rockpolar (aqui está disponível pra baixar o álbum do Plap e muitas outras bandas boas)

Sobre os blocos de rua do carnaval do Rio

Carnaval Multicultural Recife 2010

RecBeat

MySpace RecBeat

Banda Parangolé Site Oficial

http://pt.wikipedia.org/wiki/Parangol%C3%A9 (definição de Rebolation por wikipédia. Hilário!)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Um copo de vinho vazio.

 É noite de sábado quando Analuz entra em profundo estado de morbidez. Seu querido tinha ido viajar e ainda não era hora dele estar de volta.

Vestindo apenas uma camiseta larga, se estira na poltrona com uma xícara de chá uma taça de vinho e liga o som. Começa a tocar automaticamente o último CD que havia escutado. O CD é da grandiosa Ella Fitzgerald interpretando maravilhosamente Imagine My Frustration. Analuz fecha os olhos e vai pra algum lugar bem distante daquela sala, daquela poltrona; Analuz agora medita, numa imensidão paralela.

Acorda, de repente, assustada. Está na mesma posição, na mesma cadeira, o copo de vinho está vazio, o CD acabou. O silêncio toma conta de tudo e que incrível!, já são 2:50 da manhã. Estranho o tempo ter passado tão rápido. Quando Analuz sentou na poltrona era 23:28. Decidiu então, passear pela madrugada.

Vestiu um shorts, prendeu os cabelos compridos, subiu na sua bicicleta e se foi. A madrugada está mais fresca agora do que durante o dia. Alguns cachorros latem, alguns carros passam mas o silêncio é que ganha espaço.

Após ter percorrido pela avenida, Analuz arrisca uma rua vazia de casas bonitas quando, ao longe, avista um carro e duas pessoas entrando nele. Parou e olhou. Achou conhecer as pessoas, mas deixou pra lá e continuou seu passeio.

Neste mesmo carro, como se houvessem mundos paralelos, está o corpo de Analuz, enroscado em outro corpo. É Analuz e um homem. Um homem que ela só vira uma vez, tomando um café na livraria da esquina da avenida. Mas ele nunca a vira; neste dia em que ela o viu, o homem estava tão mergulhado em um livro que se caísse o mundo ele não iria perceber. Mas neste exato momento os dois estão ali, como se a noite estivesse apenas começando.

Mas a mente de Analuz não está ali. A mente de Analuz passeia de bicicleta. A brisa fria bate em seu rosto e ela suavemente fecha os olhos, abre levemente a boca. “Que sensação boa andar de bicicleta e sentir essa brisa da madrugada”, pensa.

Sente, então, uma sensação parecida com a da moça dentro do carro. Se debate contra essa sensação por um instante e depois sorri. Mas logo, abre os olhos, assustada, freando a bicicleta na frente de um carro. O carro buzina e Analuz pedala correndo.

O motivo do susto foi quando se deu conta de que ela é a moça que está dentro do carro! Corre pra rua vazia de casas bonitas pra observar novamente o carro. Mas quando chega lá, não há mais carro. Que estranho…

Atordoada, Analuz volta pra casa. Ao chegar, vê em cima da mesa, uma chave de carro. Ao final do corredor, a luz do banheiro acesa. Reconhece, pelos barulhos que faz, os gestos do seu querido.

Ele a vê e a abraça, lhe entrega flores e ela sorri. Mesmo ele chegando tarde de viagem, ainda lembra de lhe trazer flores. Que gracinha! Mas Analuz sente, por um instante, um sentimento de culpa. Como se o tivesse traído…

Recusa seus beijos e abraços por um momento, mas depois retoma as idéias e se lembra de que não era ela que estava naquele carro com o homem da livraria. Ou pelo menos não era ali que Analuz deveria estar…

Solta os cabelos, tira a roupa. Enche duas taças de vinho. Coloca novamente o CD de Ella. Deixa questões de ética e surrealismos pra lá; se volta para o seu querido, sorri e diz: Pra onde vamos amanhã, querido?

Então ele responde: Vamos dar uma volta de carro?

Analuz desperta. Está na mesma posição, na mesma cadeira, o copo de vinho está vazio, o CD acabou. As roupas estão espalhadas pelo chão e seu querido dorme um sono profundo no sofá. Agora há duas taças de vinho vazias e o sol já está surgindo.  

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Coincidências e acasos.


Sobre a data de hoje
Fim de ano.
Bla bla blas sobre o Natal.
Nenhuma consideração polêmica sobre isso.
Preguiça.

Sobre o copo de vinho
Um sentimento estranho desce em mim. Vejo fotos antigas. Antigas de meses atrás.
As fotos, a música. Tudo faz sentido por um instante.
Tomo um gole de vinho branco e bem gelado.
Observo as fotografias. As procuro no meu acervo digital. Encontro. Olho a data, vejo informações sobre o foco e a abertura em que foram fotografadas. Dou dois goles de vinho. Espremo os olhos fixamente nas imagens. Analiso...

Sobre a minha indignação
Que merda de arte é essa?

Sobre a merda da arte
Acho as fotos horríveis e então começo a adorá-las. São lindas. Ninguém precisa achar nada. Eu acho e me é suficiente.
Não foram milimetricamente pensadas. Não tem conceitulismos, nem manifestações, nem nada de enquadramento, nem de luz.

Sobre como tirei as fotos
Era outono ou inverno. Não sei. Passeava de carro por essas estradas estaduais. Gastava meu dinheiro em pedágios. Mas o céu estava azul de doer e provavelmente tocava Eric Clapton com B. B. King. Acho que estava no outono, não estava tão frio. Mas isso é relativo.
Avistei um balão; uma nota musical num fio elétrico; avistei o pôr do sol.
Avistei ainda espíritos, luzes, cores, sons. Estava além da grama verde e das árvores.
Fotografei tudo. De 80 à 110km/h.

Sobre agora
É madrugada na cidade que não dorme. Se a cidade que não dorme fosse realmente a cidade que não dorme não existira madrugada. Mas isso depende do seu conceito de madrugada.
O meu muda de dia pra dia.
A frase anterior se afirma porque hoje acordei achando que a madrugada fosse servir para dormir. Mas acabou virando uma madruga pra ser uma pessoa inútil na frente do computador. E funcionou...

Sobre como minha inutilidade funcionou
Tomei um copo de vinho, transcendi ouvindo The Doors, analisei minhas fotos e aprendi a gostar delas.

Agora volto a odiá-las.















Obs.: A qualidade não ficou muito boa quando postei aqui no blog. Para ver melhor, postarei uma por uma no meu fotolog.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Assim é fácil. Mas é assim que eu vou fazer.

Entendo que seja muito simples criar um blog e simplesmente postar poesias dos outros, mas é isso que vou fazer hoje.

Ultimamente não tenho me encorajado pra sentar na frente desse computador e gastar algum tempinho digitando algo bom. Inspirações não faltam, mas odeio admitir que a preguiça é maior.

Minhas horas de ócio criativo (ou não) diminuíram. Sempre cheia de coisas a fazer: tarefas do lar, estudos, visitas, festas e por aí vai.

Mas hoje, coincidentemente lendo O Suicídio de Durkheim, me aparece em meu quarto uma alma com um olhar perdido. Para ajudar a pobre alma, peguei entre tantos livros, o livro do Drummond, Sentimento do Mundo.  Abri em um poema que gosto e a alma então o recitou.

Fiquei com vontade de rir o tempo todo. Um sorriso de canto, daqueles de quem acha graça por ser irônico, por ser algo fantástico e totalmente maluco. Esse Drummond sabe mesmo das coisas. 

Então, agora a noite me vi correndo na grama. Tão verde. E vai ficando mais verde enquanto o sol surge. As nunvens são poucas, mas bem gordas, densas e brancas. A brisa que bate no rosto é indescritível. Sinto vontade de abraçar o mundo mas não consigo.

De repente desperto com a Miu (minha gata) miando sem parar em direção à janela. Quando olho pra fora, um morcego voa rápido pra algum lugar e eu volto pra realidade.

Quantos mundos realmente existem? São mesmo mundos? Ou a idéia de mundo foi estupidamente criada por nós? Será que existe O Mundo? Ou as coisas são simplesmente partes de um todo sem que esse todo seja necessariamente um mundo?

De nada sei. Mas uma coisa existe. Um pôr do sol amarelado, rosa e laranja. Azul e branco e cinza. Existe. Isso eu vi. E se não pudesse ver, eu saberia que aquele pôr do sol estava lá, se escondendo no horizonte. Esse pôr do sol sempre estará lá. E é ele que vou seguir até encontrar o horizonte e descobrir que depois do horizonte há muitos “mundos” a serem descobertos.

MUNDO GRANDE

de Carlos Drummond deAndrade

Outrora escutei os anjos,

as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.

Nunca escutei voz de gente.

Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei

países imaginários, fáceis de habitar,

ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

 

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