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domingo, 19 de junho de 2011

A volta do ser

A tempestade

Depois da última postagem no blog, em dezembro do ano passado, meu ser saiu de férias para nunca mais voltar. Enquanto ele percorria os quatro cantos do mundo, me encontrava abandonada. Sem ser, sem alma, fiquei desamparada, fria e superficial. Empurrando a vida com a barriga e me arrastando sobre os pés, os meses foram passando. Mas o ser sair de sua morada não é qualquer acontecimento. É algo que exige muita atenção. E mesmo assim eu mal sabia o que estava acontecendo comigo.

É como uma tempestade. De repente vem um raio, um trovão e você está lavando sua alma. Olhando assustada pra pele molhada, me dei conta de que precisava mesmo de um susto, um vômito, um ah!

 

O SOL

O ser retorna silencioso. Entra pela janela numa manhã de domingo, despretensioso. Invade o corpo, o corpo se estremece. Você está de volta. Mais calmo, mais tranquilo.

Para ilustrar a sensação, aqui vai um pequeno trecho de uma dança butoh. Onde o ser é mais que ser. Ele é estar, ele simplesmente é. E ser por ser, estar por estar, é a pura confirmação da existência e da vida.

 

 

E para completar, a música do Secret Garden. Bem leve…

"Um jardim no qual nós pode buscar refúgio quando tempos são ásperas ou reformar-se a alegria ou contemplação".

 

A leveza do ser, pela primeira vez, se torna totalmente sustentável. Como já disse Drummond, “os ombros suportam o mundo e eles não pesam mais do que o peso de uma criança.”

domingo, 10 de outubro de 2010

I just believe in me, Yoko and me.

Cumprindo a parte burocrática e clichê do dia, hoje é o 70º aniversário de John Lennon. Do cabelinho tigela, paletó e ié, ié, ié à barba, cabelão, óculos redondo e give peace a chance, ele não deixou de ser um gênio, um poderoso ativista pela paz e principalmente, um grande artista. Isso é notável. Nosso cérebro já está lavado com essas informações. Tão lavado que a paz, o amor and all that stuff, são, hoje, consideradas, ainda mais por nós, jovens antirevolucionários, como foolish stuff. No, we can’t.

Ele não é Jesus, assim como Jesus não é Jesus (ou Deus, se preferirem). Mas assim como Jesus, como Hendrix, como Luther King, como pessoas normais, ele deixou uma mensagem. Além de ter marcado uma geração inteira (e apesar de tudo, repercurtir hoje, de forma um pouco triste, um sentimento nostálgico negativo, em alguns beatlemaníacos pós modernos), o que  pregava não vinha somente dele. O povo, na verdade, se traduzia em sua figura. (Sem, claro, desmercer outras figuras marcantes como, por exemplo, Bobby Seale, entre muitos outros ativistas e artistas dos quais eu não saberia citar.)

O hairpeace, o make love not war, o power to the people, foi produto de um momento político e histórico acontecendo em um pedaço muito pequeno do mundo (não que o estrago que isso causou fosse de tamanho semelhante). Que forma isso repercuti no hoje e no agora? A meu ver, se repercuti em um asco. Parece-me que nós, jovens, criamos uma aversão ao amor livre, à paz, bla bla bla. It’s bullshit!, podemos dizer.

Se somos jovens da classe média e média-alta do Brasil (e aqui digo por São Paulo, que é onde moro), vivemos uma nostalgia cega de ouvir os grandes cérebros da tropicália, defender uma esquerda política xis,  fumar maconha numa casa chique nos altos do bairro pinheiros, tentando, talvez, copiar um estilo de vida mais ou menos nostálgico e europeu. Ou vamos à rua Augusta à procura de cerveja barata, com nossas calças apertadas, nossos tênis americanos, sejamos punks ou emos, tentando copiar, quem sabe, um estilo de vida boêmio americano ou inglês. Queremos estudar, mas odiamos a instituição escolar, política é chato mas ao mínimo, eu tento me informar. Os mais corajosos se engajam numa causa sem fundo dentro de algum partido. E no fim das contas eu quero trabalhar e reproduzir o modelo de família classe média patriarcal da qual eu vim mas atualmente digo que eu tenho que fazer o que eu gosto.

Se futebol, religião e política não se discutem, a arte é melhor nem existir. Não se pode colocar um assunto como esse à mesa, afinal, não somos jovens com sentimento de mudança, de criatividade, de sonhos, de grandes perspectivas para um futuro melhor. O que é o futuro? Vamos viver o aqui e o agora! Sim, porque somos meros reprodutores de culturas estrangeiras, somos escravos do consumismo, do mercado de trabalho, do diploma, das bolsas da fapesp, das marcas de cerveja. Somos socialmente induzidos a sermos no mínimos simpáticos. “Gente boa aquele cara”, nós dizemos.  Temos que ser, por mais fora do padrão que você acha que é, socialmente aceitáveis. Não somos polêmicos, não fazemos arte, não lutamos por nada plausível.  A discussão é aberta, parece que é tudo lindo, democracia e o diabo a quatro. Afundamos num buraco onde tudo é possível.

Não quero enfatizar que a juventude dos anos 70 foi muito melhor que a nossa. Não quero dizer que vivemos totalmente sem perspectivas. Mas se é tudo liberado, então demos à paz uma chance? Tudo que realmente precisamos é só amor? Tem certeza? Não. Nunca foi, nem entre a juventude que pregava isso. Mas convenhamos que o sentimento da época era mais forte até por motivos óbvios de conjuntura histórica.

Hoje tudo é tão possível que não permitimos nada, a carapuça da ditadura serviu na cabeça dos rebeldes e agora a estamos vestindo. Se você que hoje ouve Imagine (não na versão do Sir Elton John, por favor) e disfarça aquele nó que dá na garganta porque sabe que sentir esse nó é cafona por demais, reflita. Nao é pra você virar neo-hippie, vegetariano ou eco chato. Apenas, quando estiver preso num trânsito, preocupado em pagar suas contas num futuro próximo e entregar aquele trabalho que é cópia do que Nietzsche, Marx e Freud já pensaram por você, reflita. Pense no abstrato, no subjetivo. Faça uma versão eletrônica de Imagine, mas cuidado pra não ficar famoso (porque provavelmente a versão vai ficar um lixo), pense na cultura do desprezo e da luxúria que vivemos hoje (ou que, pelo menos, desejamos muito alcançar) e vamos continuar vivendo.

Não sei que saída tomar. A arte talvez, seja uma saída da qual eu acredito. If you want to be a hero, well just follow me.

Obs.: Este texto foi escrito sob um momento de euforia por parte da escritora.

sábado, 11 de setembro de 2010

Ressuscitar.

Me veio em mente esse termo quando lembrei da morte e daquele certo clichê de que morte nem sempre é um fim mas talvez um começo. E reviver, ressuscitar também não pode ser um novo começo? Sim. Um começo de um fim. De um começo.

O fim do começo do fim aconteceu no final do volúvel ano de 2008. Ano que deixei de ser outra para voltar a ser eu mesma. 

 

o amor

Lembro-me bem que foi quando quebrei meu coração em mil partes que descobri que amar não era aquela obsessão; que amar é fácil, difícil mesmo é cuidar. Eu mesma, sem pensar, ocasionei uma explosão de amor. Explosão destinada ao fim. Explosão que, pelo lado positivo, me permitiu que pudesse amar novamente só que sem o peso que me causava o amor anterior.

Leve, agora, sou livre. E eu sei, porque eu sinto (e já senti uma vez), e isso ninguém pode me contrariar, que eu sei bem que sinto e o que é que sinto. Não por saber explicar em palavras mas por sentir algo que não está nem dentro de mim, nem exterior a mim e muito menos superior a mim. É algo em estado meditativo, do presente, do agora, forte e de muita luz. 

 

a morte

Ainda no estranho ano de 2008 me encontrei, conscientemente pela primeira vez, com a morte. Comigo ela veio de repente mas rastejando ao longo do meu sono por uma madrugada mal dormida. Depois foi aquele social de velório e coisa e tal e o enterro foi a garantia de que não queria ficar ali sobre ossos. Fui pra casa; chorar aos prantos, claro. Não é todo dia que morre alguém que você gosta tanto.

Não era amigo e muito menos de sangue. Mas era ela. Mal sabia que tinha um lugar na minha vida. Mas sim, tinha e sempre teve. Desse jeito que a vida é, só fui perceber quando ela se foi. Enquanto ela ainda estava aqui passamos por tudo juntas apesar da grande disparidade de idade e de vida social.

A cicatriz foi formada. Mas cortes são coisas necessárias. Uma cicatriz de um amor que a morte fez renascer.

 

Um nascimento só pode vir da morte e do amor. O renascimento é esse ciclo de amar e morrer e, muitas vezes, mais do que imaginamos, de morrer e depois amar. Todos os dia amando e morrendo. Esse ciclo é o que constrói o ser.

 

É assim que renascemos, amando e morrendo.

domingo, 4 de abril de 2010

Simplicidade?

Quando fiz esse blog, queria coisas simples, desejava coisas simples. Consegui isso com pouco sucesso. Onde está a simplicidade neste blog? Acredito que o blog reflete e segue mais ou menos o meu estado de espírito e, fazendo um breve histórico da minha vida desde a data em que criei este blog, percebi que o reflexo, tal qual como o espelho, é evidente.  Procurei por todo esse tempo a simplicidade. Mas simplicidade não está em algum lugar que não seja em nós mesmos. A quem quis enganar? A partir disso, não se trata mais só de simplicidade, se trata de outra questões da vida também. Quem quero ser? Aonde quero chegar? Por que preciso ser algo? E por que tenho que chegar a algum lugar? Não sei.

Respiro fundo. Por um momento sei quem sou. Mas somente por frações de segundo. Meu ser está numa profundidade muito além de onde me encontro. Todos tem seu ser muito além de onde se encontram. O segredo talvez seja chegar a esse lugar profundo que, em questões de distância - apesar de parecer muito longe –, não está nem a dois passos de onde estamos. A simplicidade não está, ela é.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Coração à mesa.

Hora de preparar o jantar: muito tofu, suco de laranja e sopa de galinha. De sobremesa, gelatina.

Reparei que meu coração parece uma gelatina – isto foi mesmo hoje, quando o apalpei na hora do pôr do sol. Não é como o gelo, duro e frio. Não é como a água que corre, límpida.

Meu coração é mole mas consistente. O que é isso, então?

Um pôr do sol belíssimo bate à minha porta. Atendo. Ele sorri. O deixo entrar. Vestido todo de roxo, azul, vermelho, amarelo queimado, estava especialmente bonito. Mas depois se envergonhou. Foi indo tímido embora. Não senti aproximação. Cadê a fervura fria de um fim de tarde?

Meu coração quis explodir de alegria, dor e mistérios mas ele não conseguiu. Só ficou ali observando o sol se pôr.

Me bateu um cansaço. Cansaço de quem cutucou a pedra imóvel. A fez mexer, a acolheu e depois que a pedra ganhou vida, fui abandonada. Isso realmente cansa. Não por insistência mas porque parece que dói.

Cansei. Senti por dentro algo balançar. Queria que essa coisa – o coração – derretesse de amores. Mas ele não derreteu.

Meu coração é uma gelatina. Vou continuar conservando na geladeira. Até ser comido. Até ser servido, finalmente, na mesa do jantar de um futuro amor passado.

pinacoteca 011

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Uma carta para a minha nêga.

Marília, 3 de abril de 2009.

Lu,

Tenho quase certeza de que as coisas aí estão muito bem. Imagino que você esteja num lugar maravilhoso.

Aqui está tudo muito bem apesar de tudo o que aconteceu. Acho que você deve ter visto por aí uma tia da mãe e o irmão do pai, que acabou de chegar. Acredito que você os tenha recebido bem.

Daqui uns dias vai fazer quatro meses que você foi para o seu eterno Ceará, pra sua eterna Aparecida. Ainda guardo a santinha que você me trouxe de lá. É uma lembrança muito significativa pra mim. Eu deixo a lembrancinha junto com as minhas coisinhas da escrivaninha, sabe? Mas ás vezes, na hora de dormir, eu pego ela e deixo no móvel perto da cama. Parece que durmo melhor assim!

Você já deve estar sabendo. Depois que você foi, lá em casa ficou uma bagunça! Tudo de pernas pro ar. A mãe quase enlouqueceu. Você imagina, né? Mas é claro que eu ajudei ela. Você sabe que eu sei fazer as coisas de casa mas não fazia porque tinha preguiça. Mas depois que você foi eu sabia que eu tinha que ajudar a mãe e ajudei. Vai ficar orgulhosa de mim, não vai!? Ah, o pai você já sabe! Só ficou falando, botar a mão na massa mesmo foi uma vez ou outra. Até imaginei você aí fazendo cara feia pra ele. Ai, mas você ia dar risada mesmo era da gente botando ele pra trabalhar! Nossa, como você ia rir, Lu!

Sinto falta da sua risada também. E de você falando com os baldes, com a máquina de lavar, com a vassoura. Se você tava na cozinha dava pra te ouvir lá do quarto. Quantas vezes já não fechei a porta pra tentar estudar. E você ainda me aparecia lá dentro falando e falando e guardando as meias na gaveta das calcinhas. Como já fiquei brava com isso. Você era tão destraída… Depois de um tempo eu deixei pra lá. Deixa ela colocar do jeito dela, eu pensava, que depois eu arrumo.

Afinal, nada tinha eu que reclamar de você. Sabe, quando as pessoas vão embora, a gente começa a pensar em tudo o que ela foi e representou pra gente, né!? E sabe o que eu pensei de você? Que sua honestidade e simplicidade foram de uma importância imensa na minha vida.  Você não imagina o quanto sua simplicidade é linda. Bom, você deve estar se perguntando o que seria “simplicidade” e eu te respondo: simplicidade é você.

Agora eu to longe de casa, Lu. Mas não fica aflita, não. Tô aqui pra estudar, Lu. Pode parecer um absurdo pra você mas eu te juro que é uma escola boa. Te juro que vale a pena e te juro que a mãe deixou! Lu, ela é muito corajosa, você não acha?! Queria saber o que você ia achar dessa minha loucura de mudar de cidade pra estudar. Com certeza ia dar um tapinha na minha bunda e me chamar de danada. Ia falar que eu era saidera mesmo.

Mas olha só, aqui eu mesma tenho que lavar minha louça, fazer minha comida, varrer a casa. Lavo até o banheiro! Tenho que fazer minhas compras, dormir cedo e além de tudo isso, estudar muito. Imagino que agora você esteja impressionada e espero que isso seja uma forma de demonstrar orgulho por mim.

Muito do que você me ensinou eu uso aqui. Todos os anos que fiquei te observando trabalhar eu faço igual na minha nova casa. Mas o que mais tomo de exemplo de você é a honestidade e a simplicidade. E o amor, claro. Sei que seu coração é forte. Tão forte que não aguentou. Parou de bater porque se fosse pra bater mais, bateria pra sempre.

O sempre agora é onde você está. Isso me deixa muito feliz mas também me dá um aperto. Você não sabe o quanto faz falta. Queria que você estivesse lá em São Paulo com a mãe pra ajudar ela. Ela conseguiu uma moça pra ajudar ela, não fique com ciúmes. A mãe disse que ela é muito devagar. Mais que você! Mas você sabe, né? Você sabe que nada se compara a você. Porque você era integrante da família. Amiga da mãe, companheira do pai e minha segunda mãe. Agora a gente tá aqui, se virando sem você.

Sabia que a Dedé tá cada vez mais barriguda?! E ela tá sempre bem humorada, que nem você. Faz tempo que não a vejo pois estou aqui em Marília agora. Mas depois eu vou perguntar pra mãe se ela tem visto a Dedé passeando com os cachorrinhos da senhora do 82 lá em baixo. A Beti conseguiu emprego numa fábrica e tá ganhando bem! Bom, sobre suas filhas a senhora deve saber. Acredito que elas oram sempre por você. Não vou comentar nada sobre o Zé, isso você conversa com a mãe. Vocês é que ficavam falando dele e eu não sei muito o que dizer sobre essaa coisas feias que ela fazia e continua fazendo. Ai, que coisa!

Queria saber se você é um anjo agora. Queria saber o que você faz aí. Você consegue me ver aqui em baixo? E se você está perto do todo poderoso, pergunta pra ele: por quê? Pergunta, Lu. Não precisa ter vergonha, ele vai te responder. Eu sei que você também quer saber o por que. Eu sei que é difícil pra nós. Mas tá tudo bem. Eu confio nesse mundo espiritual. Sei que você está aí pra atingir um estágio indescritível que nós seres humanos não conseguimos atingir. Por isso, pra te ajudar, eu faço muitas oraçõe e oferendas. Sempre agradeço por você existir.

Sinto muito a sua falta. É uma saudade que bate forte no peito, mas as lembranças são ótimas. E isso é tão bom…

Mais uma vez, e diretamente através dessa carta, agradeço muito por tudo que você fez por mim e pela nossa família. Te admiro, por ter sustentado sua família praticamente sozinha. A senhora conseguiu deixar uma casa pra eles! Te admiro por você ter sido quem você sempre foi e que em mim deixa um buraco no peito mas que ao mesmo tempo deixa um amor imenso, uma consideração sem igual.

Com amor e muitas saudades,

          da sua nêga

                        Carla

 

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O furo da bolha para 2009

"Amor, paz e dinheiro todo mundo deseja, todo mundo quer."

   

    Faltam algumas horas para mudar o calendário. Daqui a pouco será outro ano. Para alguns isso não faz a menor diferença. Para outros, é motivo de simpatia, de mudar de vida, de tudo! Diria que estou pendendo para o lado daqueles que gostam de fazer seu "fechamento anual". Não que eu acredite nessas simpatias ou que eu leve muito a sério esse rito de passagem, mas acato o final de ano como uma oportunidade de rever os acontecimentos da minha vida.

    O ano, por mais rápido que passe (ou por mais devagar que passe), tem inúmeros acontecimentos que não devemos deixar passar em branco. A maioria deles são pequenos e nem percebemos que, de alguma forma transformam alguma coisa em nós. Mas eles, talvez, sejam os mais importantes. Felizmente, percebi o efeito de um deles.

    Todo o estresse cotidiano me tornou cada vez mais egoísta fazendo com que eu me relacionasse com total falta de harmonia com as pessoas. Um estalo, num dia, de repente, se fez na minha humilde cabeça e levantei querendo mudar: cumprimentei o sol, os passarinhos, a poluição... Passei o dia todo sorrindo, manti toda a calma e a paciência que deus me deu, tentei ser correta e esclarecida. E assim, mais ou menos, se sucede até hoje. Em parte, funcionou. Me tornei mais leve e consegui lidar melhor com as pessoas.

    Até aí, tudo bem. O mais difícil foi perceber que por mais que eu me esforce, muitas pessoas não estão nem aí pra serem mais corretas, mais sorridentes e comunitárias. Mais difícil ainda foi perceber que eu não faço esforço nenhum para ajudar essas pessoas à acenderem esse espírito dentro delas. Não é uma ajuda mútua continuando assim cada um dentro da sua própria bolha.

    Sim, eu sei que cada um tem seu jeito de ser. Uns são mais simpáticos e prestativos que outros. Outros são mais conservadores e quietos que uns. Mas não digo que temos que mudar o que realmente somos. Isso deve permanecer na bolha. O problema é que nesse mundo, tem milhões de bolhas que pensam em contruir um universo próprio dentro delas. E não é bem assim.

    Você que está lendo, sei bem que está nem aí. Sei bem que você está mesmo é planejando sua própria vida e esqueceu das pessoas e do mundo a sua volta. Respeito muito esse seu planejamento e não acho errado. Pode continuar na sua bolha, mas não esqueça de que, além dela, tem um mundo enorme pra ser encarado, vivido e compreendido.

    Reclame sim da corrupção no governo do país, das pessoas que jogam lixo no rua, da fome mundial, da má educação, dá má distribuição de renda. Reclame muito e continue planejando apenas a sua bela vida.

    Para 2009 recomendo que quebramos um pedacinho da nossa bolha e deixamos o ar maravilhoso da vida corrupta entrar. Sem deixar nossos planos pra trás, mas sem deixar também a vida em comum para trás.

    Amor, paz e dinheiro todo mundo deseja, todo mundo quer! Desejar e querer isso é fácil. Só vamos conseguir isso se cumprirmos o básico que é respeito e sinceridade.

   Desejo a todos muito bom senso, paciência e calma, sentimento de luta e sentimento de ajudar o próximo.

 

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Metáfora do fim.

Homem no mar

De minha varanda vejo, entre árvores e telhado, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. (...)

Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando.  (...)

Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solidário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão.

Já nadou em minha presença uns trezentos metros; antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços.  Mais uns ciquenta metros, e o perderei de vista, pois um telhado o esconderá.

Que ele nade bem esses cinquenta ou sessenta metros; isto me parece importante; é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, e que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer... Será perfeito; a imagem desse homem me faz bem.

É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solidário com ele, e espero que ele esteja comigo.

Que ele atinja o telhado, e então eu poderei sair da varanda tranqüilo pensando - "vi um homem sozinho, nadando no mar; quando o vi ele já estava nadando; acompanhei-o com atenção durante todo o tempo, e testemunho que ele nadou sempre com firmeza e correção; (...)

Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; (...)

Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.

Crônica de Rubem Braga.

domingo, 3 de agosto de 2008

Ah, aquele vento!

Eu estava lá, no ponto de ônibus. Tarde de sábado, sol com muitas nuvens, dia tranqüilo. Qual era o destino? O que eu faria perambulando por aí sem caminho sem ninguém? Não sei, eu vou.

Um vento bom soprava. Soprava a favor de quê? De quem?Soprava a favor de tudo e de todos nós.

Ponto sim, ponto não, o ônibus a remexer pelas indas e vindas das ladeiras, duas crianças e uma mãe (Onde estariam indo? Visitar a vó, talvez?) cantavam Lua de Cristal como se fosse o hino da infância. Desceram logo.

Parada sim, parada não. Dois meninos e um violão. Toquem pra mim! O som da freada. Fecho os olhos, só tenho que esperar meu destino final.Desço, ando. Pra onde? Estou indo.

Me deparo, de repente, com uma singela exposição de um fotógrafo, que até então nunca tinha ouvido falar. Que fotos lindas! Christian Cravo é o nome dele. Lindas!

E agora? Rumo a um banco isolado.

E dessa vez me daparo com uma figura estranha, olhando fixamente pra mim.Vestia um sobretudo que ia um pouco acima das canelas e percebia-se que estava sem calças. Usava um óculos de fantasia. Aqueles com um nariz e um bigode.Também olhei fixamente pra ele. Antes, conferi se não havia nenhum câmera de televisão por perto. Mesmo que eu já esperasse alguma surpresa, levei um susto quando ele abriu o casaco. Olhei de baixo para cima. Usava apenas um tapa-sexo onde estava escrito “Hoje é dia de sexo” ou “Aulas de sexo”, algo assim. Dei uma boa risada e depois fiquei sem graça. Continuei andando. Mais a frente, um indivíduo com uma filmadora. Acho que fui registrada!

Cheguei ao meu destino, um banco vazio! Vários casais, alguns mendigos. Cheiro de yakissoba. Pouca luz. O dia estava indo embora mas aquele vento, ah, aquele vento!Continuava a bater no meu rosto, no rosto de todos nós, balançando saias e vestidos, blusas largas.

Um momento de distração e lágrimas rolaram pelo meu rosto. E uma voz dizia: não precisa disso! Me acalmou. E como se encerrasse um telefonema, encerrei as lágrimas.

Veio, então, um palhaço. Posso jurar que apareceu, do nada, na minha frente.Fez umas mímicas confusas e entendi que queria comer. Quando fiz cara de quem não estava entendendo nada, ele fez um sinal para esperar, algo como: fica calma, vou te mostrar algo. Então, tirou uma flor de plástico do chapéu e me deu. Abri um sorriso muito grande e muito sincero e ele retribui, também, com muita sinceridade. Depois fez mais mímica e dessa vez entendi perfeitamente, pois ele tirou o chapéu colorido a apontou pra ele. Dei algumas moedas. Ele juntou as duas mãos e fez uma reverência, eu o imitei. Aí ele disse “obrigada!” e foi-se embora. Fiquei sorrindo um bom tempo.Como aquele palhaço apareceu ali, naquela rua sem ninguém? Com certeza estava me procurando. Queria roubar um sorriso.

Hora de voltar, não tem nada aqui.Dez, quinze minutos. Cadê o ônibus? Cheiro de fritura... Batata frita de rua! Comi como se fosse um banquete. E nem estava com fome!

De volta pra casa, noite boa. De longe eu ouvia... “Help, I need somebody. Help!...”Achei estranho.

Ao abrir a janela do meu quarto, senti aquele vento, ah, aquele vento.

Cheiro de chuva!Sorri de novo.

domingo, 22 de junho de 2008

Momento desabafo-filosófico do dia


"...assim Lalinha recordava sua própria adolescência - que agora lhe parecia inflar do avesso, separada de tudo, desatadamente vivida, como se pertencesse a outra criatura.

Lembrava-se: de quando se isolava, aflita sem razão, e tremia de querer uma novidade de amor, espantosa salvação e espaço.

De repente, de si, achara um vezo, muito oculto, o de abraçar-se ao que estivesse melhor ao seu alcance, uma porta, o travesseiro, um móvel, abraçava, e recitava frases de arroubo.

...quando descobriu que, para a verdade do amor, era a necessária a carne: que sua carne doesse, leve, devagar, enquanto ela murmurava sua intransmissível paixão, e prometia e implorava.

...Sonhasse - mas como se em luta por defender-se de outros sonhos.

Nisso se refugiara, por um tempo, meses; se gradualmente, se de uma vez, nem sabia como se desabituara. ...Mas, segredo que não confiaria a ninguém, a nenhuma amiga. Passara.

Quando o primeiro namorado apareceu, o mais era já assunto remoto, sem lembrança. Daí o amor dispunha-se de brinquedo, namorava exercendo um jogo expansivo, que esperavam dela, emancipador e predatório.

Seus namorados, contava-os como companheiros amáveis ou adversários amistosos; não lhe inspiravam devaneios nem desejo, e enjoava deles, se queriam romance.

Até que conheceu Irvino. A Irvino, amou, ao menos pensou que amasse, pensou desordenada.

Mas nele viu foi o homem, respirando e de carne-e-osso - seus olhos devassantes, seus largos ombros, a boca, que lhe pareceu a de um bicho, suas mãos.

Teve logo a vontade de que ele a beijasse, muito; por amor ao amor, não lhe veio a idéia de penar por ele.

Como uma vítima... De vezinha, impacientava-se, pensando nisso.

Então, o amor tinha de ser assim - uma carência na pessoa, ansiando pelo que a completasse? Ela ama para ser mãe... É como se já fosse mãe, mesmo sem um filho...

Mas, também outra espécie de amor devia poder um dia existir: o de criaturas conseguidas, realizadas.

Para essas, então, o amor seria uma arte, uma bela-arte? Haveria outra região, de sonhos, mas diversa. Havia."

Trechos de um longo parágrafo de Guimarães Rosa em Noites do Sertão.

domingo, 8 de junho de 2008

Happines is a warm gun.


O que estamos fazendo afinal?
O mundo tá acabando, economicamente, politicamente, humanamente, sei lá!
Acordo na espera de ligar a TV, o computador como se fosse companhia.
As vezes evito ler algum livro ou ouvir alguma música para não chegar ao lado mais emocional do cérebro.
Estou evitando alguma coisa. Será?!
Não.
Eu estou mais. Fiz um furinho em mim mesma e tudo q é bom sai de mim, para os outros, para o mundo.
 
Estou tentando sorrir mais. Nunca deixei de ser feliz. Mas acreditem, já escondi sorriso.
 
Na euforia de tentar parecer fria, intuitiva e quieta, deixei de aproveitar algumas risadas, alguns amores, alguns chocolates, algumas amizades.
 
E agora, vivendo outra euforia, pego a warm gun e atiro em tudo aquilo que só atrapalha a ocorência de grandes sorrisos.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Muito o que pensar nesse feriado: Tirar os Dentes?


Hoje foi um típico dia de feriado: não fiz nada. Quem ficou de me ligar não ligou, então não teve cinema com direito a guaraná de máquina. Mas também, não corri atrás de ninguém. Fiquei aqui lendo livro na cama, no sofá, na poltrona, no tapete...

Hoje foi um típico dia de feriado: solitário mesmo em família. Na hora de comer junta os três a mesa e depois cada um se enfia num canto da casa e cai na sua própria morbidez que só um feriado pode trazer.

E assim vai uma tarde. Nada pra pensar. Só uma coisa me incomodava...

Mas de resto, é aquele chove não molha mas que faz frio. É aquele pôr-do-sol laranja avermelhado e é aquela saudade de abraço grande com o braço grande do meu homem grande.
É vontade de tomar chocolate quente até ter overdose.
Mas é só vontade. A verdade é que só bebi água e chá.

No final da tarde, não choveu mais: fui comprar comidinhas.
A caminho pensei em escrever esse texto. Mas ainda sim, a tal coisa me incomodava

Pães, bisnaguinhas, rosbife, queijo, uma barra de chocolate milka. "Moça, arredonda o valor com balinha de hortelã, por favor."
Os mocinhos da padaria sempre cordiais: foi para um deles, o que me atendeu, que gastei meu sorriso de agradecimento com um pouco de ternura (precisava dar um sorriso de ternura).
As vezes, ninguém ouve minha voz baixa mas vê meu sorriso que, modéstia a parte, é perfeito.

Na volta pra casa aquela coisa que me incomodava veio á tona: tiro ou não os dentes do ciso?
Essa questão pré-traumática ficou tanto na minha cabeça que nem comi.

Então me sento aqui e ouço Lucy in the sky como se tivesse 64 anos lembrando dos 18 com ternura, só que dessa vez sem sorrir. (Com 64 anos ficar mostrando os dentes sem os 4 juízos? Não...)


Só fica no olho aquele brilho de quem de repente sente falta dos dias agitados com os amigos. Deve ser o frio que dá essa sensação de ausência a todo momento. E nem está tão frio...

Não tenho mais em que pensar. Pensar no amor é respirar a todo momento. Pensar nos amigos é comer chocolate. Pensar na dor é pensar em dor física, tipo dor de dente. Porque dor que é dor de verdade, que é aquela que dá no fundo do peito, não se comenta, só deixa passar.
Pensar no quê, agora? E então, bruscamente decido: não vou tirar os dentes do ciso!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Música Moderna


Eram, mais ou menos, dez horas da manhã do dia anterior ao anterior de hoje. Dia de sol e vento fresco. Não gelado, fresco.

A bela vista que tenho do nono andar se resumia em resquícios de prédios perdidos na poeira poluída acumulada durante apenas dois míseros dias de correria e muito trabalho.

Mas eu não estava olhando para a bela vista. Olhava outra janela, com duas abas. Uma janela que continha, do lado de quem vê, cidades construídas por letras. Me aprofundava dramaticamente na leitura. Daquelas que você espreme o olho de tanto devorar páginas e páginas.

Estava ali, debaixo dos lençóis, apoiada no travesseiro, segurando o livro como se fosse um filho meu quando um som passou por barreiras de poluição, algumas janelas e alguns andares, atravessou a pequena rua sem saída e invadiu meus ouvidos, meu olho espremido, minha leitura!

Foi chegando de fininho, ouvia bem baixo o estranho ruído no meu ouvido direito (mais que no esquerdo). Veio assim, como quem não pede permissão e já vai invadindo corpo e alma.

Era um sax, talvez. Não conheço bem instrumentos, mas sei bem apreciar. E eu estava gostando, tocava bem, o estranho! Quem seria esse intruso musical?

E como que de repente, o som estava ali de segundo plano e eu com as minhas letras, profundas. Como se o som parasse pra eu ler. Mas não parou esse tal de sax. Quem seria esse intruso musical?

Ainda perdida nas letras, o som da britadeira lá fora. Mas de novo um ruído me atrapalhando. "Será possível? Que diabos estão quebrando?"
E a reforma do sétimo andar? Tão destruidora que parece que martelam em cima de nossas pobres cabeças. E um som de jazz lento que parece mais um blues agitado que vinha não sei de onte. "Quanto barulho!"

Ou seria música?
De repente volto ao consciente. "Cadê as letras?"
Perdi meu filho-livro nos lençóis!

"Cadê meu livro?" ................. "Deixa pra lá!"
Fiquei admirando o armário em minha frente, mas com o olhar longe. Longe até os ouvidos.
Quanto som, barulho, ruído e esse tal de sax! Quem seria esse intruso musical?
Quem seriam?

E todos juntos lá de fora gritaram "Isso é o que chamamos de música moderna!".


domingo, 2 de março de 2008

Dia especial pra quem faz ele ficar especial.


Ouvindo Beatles como se fosse a primeira vez...

 

I've got a feeling, a feeling deep inside
Oh yeah
I've got a feeling, a feeling I can't hide
Oh no
I've got a feeling yeah

Oh please believe me
I'd hate to miss the train
Oh yeah
And if you leave me I won't be late again
Oh no
Yeah I've got a feeling yeah

All these years I've been wandering around
Wondering how come nobody told me
All that I was looking for was somebody
who looked like you.

Everybody had a hard year
Everybody had a good time
Everybody had a wet dream
Everybody saw the sunshine
Oh yeah
Everybody had a good year
Everybody let their hair down
Everybody pulled their socks up
Everybody put their foot down
Oh yeah

(Foto por mim mesma, dos dias em que o sol entra na sala querendo desenhar.)

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