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domingo, 26 de dezembro de 2010

Crônica acrônica de Natal

Passo a tarde do dia 24 preparando pratos monumentais. A salada que foi com manga ano passado, esse ano vai com abacate; o frango com batatas vira frango com pimentão e assim vai. O pavê é o mesmo: só acrescentei uma camadinha em cima. Pra dar uma mudada, né? Ano passado a prima tinha 18 anos e esse ano, 19. Como cresceu! As tias envelhecem, os tios bebem cada vez mais cerveja. As crianças que corriam no quintal hoje jogam videogame. E incrível!, tudo é muito igual.

Minha vida, em um ano, mudou muita coisa. Mas o natal é totalmente acrônico. Apesar das mudanças, ele é imutável.

A tentativa, cansativa e maçante mas que deu certo até agora, de manter uma tradição longínqua de famílias específicas que vieram de específicos lugares, nós que por centenas de anos, nascemos católicos por inércia, essa tentativa é pra manter a família unida? É uma tentativa de manter uma tradição?

E tradição necessariamente está ligada a reunir uma família de sangue? Uma reunião da qual várias peças, mas com este detalhe fundamental de que cada peça vem de um quebra-cabeça diferente, se juntam na tentativa de montar um quebra-cabeça único. É essa tradição que queremos manter? E por quê?

Japoneses montam árvores de natal ao estilo europeu. Japonês tem natal? Meriikurisumasu, eles dizem. What?!  Brasileiros, deixemos de lado nossos maravilhosos coqueiros que enfeitam as praias que nos fazem a fama, e vamos pegar nossos pinheiros, nossa frutas vermelhas (esqueçam também a banana e manga, por favor) e vamos vestir nosso negro de branco, casacão e barba; vamos vestir nosso trabalhador de aposentado sorridente e abonado. Vamos passar calor…

Não é crítica, é apenas uma reflexão. A avenida Paulista ferveu ontem. Ferveu de católicos, cristãos, budistas, espiritistas, judeus, ateus, ortodoxos; famílias, grupos de amigos, casais homossexuais, a tia que veio de Campina Grande também tava lá, os modernetes da Augusta também, os cult do teatro e do jazz – pasmem! – também estavam lá. O que nos levou até lá?  Talvez uma ressalva no Jornal da Tarde da Rede Globo (de que seria o último dia de enfeites) tenha suscitado uma esperança última de fazer um último pedido ao Papai Noel. Talvez uma esperança perdida de que o Natal seja aquela época do ano que sabe manter uma tradição. Será?

Na véspera, ajeito as bolas vermelhas da árvore de natal, ligo os pisca-piscas e aguardo os convidados familiares chegarem. Coloco Caetano no toca discos…

De onde nem tempo, nem espaço
Que a força mãe dê coragem
Prá gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas do nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne...

O de sempre começa. Mas posso afirmar que apesar de igual, esse ano foi diferente. Por quê? Coloquei amor no que fiz? Deixei de lado questões chatas e mergulhei na comemoração? Estou crescendo, me acostumando?

No dia seguinte caminho pelas ruas do Peruche a procura de uma resposta. As pequenas casas, com seus grandes carros tem suas cadeiras de praia – que queriam estar na praia – fazendo da calçada sua sala. As crianças correm pela rua, os bebês somente de fralda escapam dos braços das mães. O churrasco tá saindo, a cerveja tá gelada e o sertanejo (ao fund, em outro recinto, há sempre um funk) tá tocando. Dou benção à minha vó e ela reza o Pai Nosso antes de partir pra tragédia grega que é o almoço de Natal. Me engasgo nas palavras, não sei rezar. Não nessa língua.

 

Casa da dona Josefina, 25 de dezembro de 2010.

domingo, 10 de outubro de 2010

I just believe in me, Yoko and me.

Cumprindo a parte burocrática e clichê do dia, hoje é o 70º aniversário de John Lennon. Do cabelinho tigela, paletó e ié, ié, ié à barba, cabelão, óculos redondo e give peace a chance, ele não deixou de ser um gênio, um poderoso ativista pela paz e principalmente, um grande artista. Isso é notável. Nosso cérebro já está lavado com essas informações. Tão lavado que a paz, o amor and all that stuff, são, hoje, consideradas, ainda mais por nós, jovens antirevolucionários, como foolish stuff. No, we can’t.

Ele não é Jesus, assim como Jesus não é Jesus (ou Deus, se preferirem). Mas assim como Jesus, como Hendrix, como Luther King, como pessoas normais, ele deixou uma mensagem. Além de ter marcado uma geração inteira (e apesar de tudo, repercurtir hoje, de forma um pouco triste, um sentimento nostálgico negativo, em alguns beatlemaníacos pós modernos), o que  pregava não vinha somente dele. O povo, na verdade, se traduzia em sua figura. (Sem, claro, desmercer outras figuras marcantes como, por exemplo, Bobby Seale, entre muitos outros ativistas e artistas dos quais eu não saberia citar.)

O hairpeace, o make love not war, o power to the people, foi produto de um momento político e histórico acontecendo em um pedaço muito pequeno do mundo (não que o estrago que isso causou fosse de tamanho semelhante). Que forma isso repercuti no hoje e no agora? A meu ver, se repercuti em um asco. Parece-me que nós, jovens, criamos uma aversão ao amor livre, à paz, bla bla bla. It’s bullshit!, podemos dizer.

Se somos jovens da classe média e média-alta do Brasil (e aqui digo por São Paulo, que é onde moro), vivemos uma nostalgia cega de ouvir os grandes cérebros da tropicália, defender uma esquerda política xis,  fumar maconha numa casa chique nos altos do bairro pinheiros, tentando, talvez, copiar um estilo de vida mais ou menos nostálgico e europeu. Ou vamos à rua Augusta à procura de cerveja barata, com nossas calças apertadas, nossos tênis americanos, sejamos punks ou emos, tentando copiar, quem sabe, um estilo de vida boêmio americano ou inglês. Queremos estudar, mas odiamos a instituição escolar, política é chato mas ao mínimo, eu tento me informar. Os mais corajosos se engajam numa causa sem fundo dentro de algum partido. E no fim das contas eu quero trabalhar e reproduzir o modelo de família classe média patriarcal da qual eu vim mas atualmente digo que eu tenho que fazer o que eu gosto.

Se futebol, religião e política não se discutem, a arte é melhor nem existir. Não se pode colocar um assunto como esse à mesa, afinal, não somos jovens com sentimento de mudança, de criatividade, de sonhos, de grandes perspectivas para um futuro melhor. O que é o futuro? Vamos viver o aqui e o agora! Sim, porque somos meros reprodutores de culturas estrangeiras, somos escravos do consumismo, do mercado de trabalho, do diploma, das bolsas da fapesp, das marcas de cerveja. Somos socialmente induzidos a sermos no mínimos simpáticos. “Gente boa aquele cara”, nós dizemos.  Temos que ser, por mais fora do padrão que você acha que é, socialmente aceitáveis. Não somos polêmicos, não fazemos arte, não lutamos por nada plausível.  A discussão é aberta, parece que é tudo lindo, democracia e o diabo a quatro. Afundamos num buraco onde tudo é possível.

Não quero enfatizar que a juventude dos anos 70 foi muito melhor que a nossa. Não quero dizer que vivemos totalmente sem perspectivas. Mas se é tudo liberado, então demos à paz uma chance? Tudo que realmente precisamos é só amor? Tem certeza? Não. Nunca foi, nem entre a juventude que pregava isso. Mas convenhamos que o sentimento da época era mais forte até por motivos óbvios de conjuntura histórica.

Hoje tudo é tão possível que não permitimos nada, a carapuça da ditadura serviu na cabeça dos rebeldes e agora a estamos vestindo. Se você que hoje ouve Imagine (não na versão do Sir Elton John, por favor) e disfarça aquele nó que dá na garganta porque sabe que sentir esse nó é cafona por demais, reflita. Nao é pra você virar neo-hippie, vegetariano ou eco chato. Apenas, quando estiver preso num trânsito, preocupado em pagar suas contas num futuro próximo e entregar aquele trabalho que é cópia do que Nietzsche, Marx e Freud já pensaram por você, reflita. Pense no abstrato, no subjetivo. Faça uma versão eletrônica de Imagine, mas cuidado pra não ficar famoso (porque provavelmente a versão vai ficar um lixo), pense na cultura do desprezo e da luxúria que vivemos hoje (ou que, pelo menos, desejamos muito alcançar) e vamos continuar vivendo.

Não sei que saída tomar. A arte talvez, seja uma saída da qual eu acredito. If you want to be a hero, well just follow me.

Obs.: Este texto foi escrito sob um momento de euforia por parte da escritora.

sábado, 11 de setembro de 2010

Ressuscitar.

Me veio em mente esse termo quando lembrei da morte e daquele certo clichê de que morte nem sempre é um fim mas talvez um começo. E reviver, ressuscitar também não pode ser um novo começo? Sim. Um começo de um fim. De um começo.

O fim do começo do fim aconteceu no final do volúvel ano de 2008. Ano que deixei de ser outra para voltar a ser eu mesma. 

 

o amor

Lembro-me bem que foi quando quebrei meu coração em mil partes que descobri que amar não era aquela obsessão; que amar é fácil, difícil mesmo é cuidar. Eu mesma, sem pensar, ocasionei uma explosão de amor. Explosão destinada ao fim. Explosão que, pelo lado positivo, me permitiu que pudesse amar novamente só que sem o peso que me causava o amor anterior.

Leve, agora, sou livre. E eu sei, porque eu sinto (e já senti uma vez), e isso ninguém pode me contrariar, que eu sei bem que sinto e o que é que sinto. Não por saber explicar em palavras mas por sentir algo que não está nem dentro de mim, nem exterior a mim e muito menos superior a mim. É algo em estado meditativo, do presente, do agora, forte e de muita luz. 

 

a morte

Ainda no estranho ano de 2008 me encontrei, conscientemente pela primeira vez, com a morte. Comigo ela veio de repente mas rastejando ao longo do meu sono por uma madrugada mal dormida. Depois foi aquele social de velório e coisa e tal e o enterro foi a garantia de que não queria ficar ali sobre ossos. Fui pra casa; chorar aos prantos, claro. Não é todo dia que morre alguém que você gosta tanto.

Não era amigo e muito menos de sangue. Mas era ela. Mal sabia que tinha um lugar na minha vida. Mas sim, tinha e sempre teve. Desse jeito que a vida é, só fui perceber quando ela se foi. Enquanto ela ainda estava aqui passamos por tudo juntas apesar da grande disparidade de idade e de vida social.

A cicatriz foi formada. Mas cortes são coisas necessárias. Uma cicatriz de um amor que a morte fez renascer.

 

Um nascimento só pode vir da morte e do amor. O renascimento é esse ciclo de amar e morrer e, muitas vezes, mais do que imaginamos, de morrer e depois amar. Todos os dia amando e morrendo. Esse ciclo é o que constrói o ser.

 

É assim que renascemos, amando e morrendo.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Paciência.

Eu não tenho paciência de esperar passar uma chuva forte por mais de 10 minutos. Muitas das vezes em que isso ocorreu, acabei andando, impaciente e feliz, recebendo as gotículas gordas de água poluída. Hoje consegui superar um pouco essa falta de paciência. Parei em um lugar seco para poder escrever este texto e relembrar, com todos os detalhes, o dia em que lavei minha alma.

O dia em que lavei minha alma.

Aconteceu ano passado, no chuvoso mês de setembro. Já estava morando em Marília e era um daqueles famosos finais de semana solitários. Resolvi ir ao cineclube, num pacato final de domingo, ver não sei que filme. Estava calor. Escolhi logo um lugar abaixo do ventilador de teto para que pudesse me refrescar mas depois pareceu inútil, o calor vencia qualquer tentativa de refresco. O filme, que deveria ser muito interessante, passou tão rápido que nem vi a hora correr. Ao chegar na porta pra ir embora, vi um amontoado de pessoas. Elas cobriam minha visão e não pude entender o que se passava lá fora. Como teria que sair mesmo, resolvi passar pelas pessoas pra sair. Então fui tomada de choque e brequei, assim como um carro freia bruscamente rangendo os pneus.

Chovia torrencialmente de forma que era impossível ver o outro lado da rua pois tudo estva coberto por um manto molhado. O chão do asfalto recebia, como fortes chicotadas, os pingos pesados que caíam muito rápido. A luz que saía dos postes ficava embaçada e os carros passavam devagar. Não se avistava uma alma na rua. O barulho da chuva soava como o som de uma orquestra que toca agressivamente os instrumentos. O ar tinha aquele cheiro de grama molhada, que entra pelas narinas e te faz delirar. Um ventinho suave e gelado soprava no rosto de preocupação de todos aqueles que esperavam uma trégua da chuva pra poder sair. Eu também esperava, mas estava ficando impaciente.

Estava carregando três coisas nas mãos. Dobrei a programação do cineclube e coloquei dentro da calça. Discretamente guardei o celular no decote da blusa e apertei bem forte as chaves de casa na mão esquerda. Joguei alguns fios de cabelo pra trás, ergui um pouco a barra da calça. Usava chinelos. Respirei bem fundo. Olhei pra todos envolta. Ainda permaneciam preocupados e a feição de curiosidade e mais preocupação apareceram em seus rostos quando viram meu preparatório. Respirei fundo novamente, olhei pra cima e vi a chuva. Esbocei um leve sorriso, fechei levemente os olhos e então saltei pra calçada. Escutei os ruídos de surpresa e indgnação atrás de mim. Mas continuei rindo e andando. O processo de lavagem estava a começar. Olhei pras pessoas com cara de criança levada, como se estivesse dando um “tchau, vocês não sabem o que estão perdendo” e atravessei a rua. As pessoas que se abrigavam embaixo de toldos de estabelecimentos fechados olhavam com surpresa. E assim fui indo, a caminho pra casa. A caminhada não deveria durar mais de 10 minutos.

A chuva molhava meus cabelos e minha roupa. Meu pé estava completamente encharcado. As gotas não cansavam de escorregar em mim. Então, parei, fechei os olhos e senti minha alma sendo lavada. Sensação única e necessária pra quando se pensa que tudo está perdido.

Texto escrito em 16 de Março de 2010.

chuva (12)

chuva (33)

chuva

domingo, 4 de abril de 2010

Simplicidade?

Quando fiz esse blog, queria coisas simples, desejava coisas simples. Consegui isso com pouco sucesso. Onde está a simplicidade neste blog? Acredito que o blog reflete e segue mais ou menos o meu estado de espírito e, fazendo um breve histórico da minha vida desde a data em que criei este blog, percebi que o reflexo, tal qual como o espelho, é evidente.  Procurei por todo esse tempo a simplicidade. Mas simplicidade não está em algum lugar que não seja em nós mesmos. A quem quis enganar? A partir disso, não se trata mais só de simplicidade, se trata de outra questões da vida também. Quem quero ser? Aonde quero chegar? Por que preciso ser algo? E por que tenho que chegar a algum lugar? Não sei.

Respiro fundo. Por um momento sei quem sou. Mas somente por frações de segundo. Meu ser está numa profundidade muito além de onde me encontro. Todos tem seu ser muito além de onde se encontram. O segredo talvez seja chegar a esse lugar profundo que, em questões de distância - apesar de parecer muito longe –, não está nem a dois passos de onde estamos. A simplicidade não está, ela é.

terça-feira, 23 de março de 2010

Beijarte (e fazer sentido).

 

Chagall

 

 

Klimt

 

 

           

Rodin

 

 

                      

Doisneau

 

 

 

Bresson

 

 

 

“Beijar-te e fazer sentido,

querer-te e me sentir feito um foguete

que prosseguiu subindo pra Marte,                  

onde te vi sorrindo…”        

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Coincidências e acasos.


Sobre a data de hoje
Fim de ano.
Bla bla blas sobre o Natal.
Nenhuma consideração polêmica sobre isso.
Preguiça.

Sobre o copo de vinho
Um sentimento estranho desce em mim. Vejo fotos antigas. Antigas de meses atrás.
As fotos, a música. Tudo faz sentido por um instante.
Tomo um gole de vinho branco e bem gelado.
Observo as fotografias. As procuro no meu acervo digital. Encontro. Olho a data, vejo informações sobre o foco e a abertura em que foram fotografadas. Dou dois goles de vinho. Espremo os olhos fixamente nas imagens. Analiso...

Sobre a minha indignação
Que merda de arte é essa?

Sobre a merda da arte
Acho as fotos horríveis e então começo a adorá-las. São lindas. Ninguém precisa achar nada. Eu acho e me é suficiente.
Não foram milimetricamente pensadas. Não tem conceitulismos, nem manifestações, nem nada de enquadramento, nem de luz.

Sobre como tirei as fotos
Era outono ou inverno. Não sei. Passeava de carro por essas estradas estaduais. Gastava meu dinheiro em pedágios. Mas o céu estava azul de doer e provavelmente tocava Eric Clapton com B. B. King. Acho que estava no outono, não estava tão frio. Mas isso é relativo.
Avistei um balão; uma nota musical num fio elétrico; avistei o pôr do sol.
Avistei ainda espíritos, luzes, cores, sons. Estava além da grama verde e das árvores.
Fotografei tudo. De 80 à 110km/h.

Sobre agora
É madrugada na cidade que não dorme. Se a cidade que não dorme fosse realmente a cidade que não dorme não existira madrugada. Mas isso depende do seu conceito de madrugada.
O meu muda de dia pra dia.
A frase anterior se afirma porque hoje acordei achando que a madrugada fosse servir para dormir. Mas acabou virando uma madruga pra ser uma pessoa inútil na frente do computador. E funcionou...

Sobre como minha inutilidade funcionou
Tomei um copo de vinho, transcendi ouvindo The Doors, analisei minhas fotos e aprendi a gostar delas.

Agora volto a odiá-las.















Obs.: A qualidade não ficou muito boa quando postei aqui no blog. Para ver melhor, postarei uma por uma no meu fotolog.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Assim é fácil. Mas é assim que eu vou fazer.

Entendo que seja muito simples criar um blog e simplesmente postar poesias dos outros, mas é isso que vou fazer hoje.

Ultimamente não tenho me encorajado pra sentar na frente desse computador e gastar algum tempinho digitando algo bom. Inspirações não faltam, mas odeio admitir que a preguiça é maior.

Minhas horas de ócio criativo (ou não) diminuíram. Sempre cheia de coisas a fazer: tarefas do lar, estudos, visitas, festas e por aí vai.

Mas hoje, coincidentemente lendo O Suicídio de Durkheim, me aparece em meu quarto uma alma com um olhar perdido. Para ajudar a pobre alma, peguei entre tantos livros, o livro do Drummond, Sentimento do Mundo.  Abri em um poema que gosto e a alma então o recitou.

Fiquei com vontade de rir o tempo todo. Um sorriso de canto, daqueles de quem acha graça por ser irônico, por ser algo fantástico e totalmente maluco. Esse Drummond sabe mesmo das coisas. 

Então, agora a noite me vi correndo na grama. Tão verde. E vai ficando mais verde enquanto o sol surge. As nunvens são poucas, mas bem gordas, densas e brancas. A brisa que bate no rosto é indescritível. Sinto vontade de abraçar o mundo mas não consigo.

De repente desperto com a Miu (minha gata) miando sem parar em direção à janela. Quando olho pra fora, um morcego voa rápido pra algum lugar e eu volto pra realidade.

Quantos mundos realmente existem? São mesmo mundos? Ou a idéia de mundo foi estupidamente criada por nós? Será que existe O Mundo? Ou as coisas são simplesmente partes de um todo sem que esse todo seja necessariamente um mundo?

De nada sei. Mas uma coisa existe. Um pôr do sol amarelado, rosa e laranja. Azul e branco e cinza. Existe. Isso eu vi. E se não pudesse ver, eu saberia que aquele pôr do sol estava lá, se escondendo no horizonte. Esse pôr do sol sempre estará lá. E é ele que vou seguir até encontrar o horizonte e descobrir que depois do horizonte há muitos “mundos” a serem descobertos.

MUNDO GRANDE

de Carlos Drummond deAndrade

Outrora escutei os anjos,

as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.

Nunca escutei voz de gente.

Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei

países imaginários, fáceis de habitar,

ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

 

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Coração à mesa.

Hora de preparar o jantar: muito tofu, suco de laranja e sopa de galinha. De sobremesa, gelatina.

Reparei que meu coração parece uma gelatina – isto foi mesmo hoje, quando o apalpei na hora do pôr do sol. Não é como o gelo, duro e frio. Não é como a água que corre, límpida.

Meu coração é mole mas consistente. O que é isso, então?

Um pôr do sol belíssimo bate à minha porta. Atendo. Ele sorri. O deixo entrar. Vestido todo de roxo, azul, vermelho, amarelo queimado, estava especialmente bonito. Mas depois se envergonhou. Foi indo tímido embora. Não senti aproximação. Cadê a fervura fria de um fim de tarde?

Meu coração quis explodir de alegria, dor e mistérios mas ele não conseguiu. Só ficou ali observando o sol se pôr.

Me bateu um cansaço. Cansaço de quem cutucou a pedra imóvel. A fez mexer, a acolheu e depois que a pedra ganhou vida, fui abandonada. Isso realmente cansa. Não por insistência mas porque parece que dói.

Cansei. Senti por dentro algo balançar. Queria que essa coisa – o coração – derretesse de amores. Mas ele não derreteu.

Meu coração é uma gelatina. Vou continuar conservando na geladeira. Até ser comido. Até ser servido, finalmente, na mesa do jantar de um futuro amor passado.

pinacoteca 011

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Será que é por isso que o céu é tão imenso?

O telefone toca. Estremeço. Alguém atende. Fecho os olhos, apertados. Me contraio por uns segundos. Pela voz de quem atendeu percebo que não é nada grave. Relaxo.

Um telefonema pode trazer uma notícia pesada, nada agradável. Foi assim da última vez. (Não da última vez que alguém morreu, mas da última vez que recebi um telefonema pesado.) Estava a escovar os dentes, era tarde da noite. Não esperava nada da vida naquela momento. Mas também não esperava nada da morte. O dia estava tão comum. Me pergunto até hoje o por que daquele dia estar tão comum.

Não é normal alguém virar uma estrela, um anjo. É algo de supremo respeito e grande beleza alguém deixar de lado todo essa matéria que nos prende. Admiro quem vai. Vai e não leva nada. (Ou leva-se tudo.) Deixa tudo aqui, até a própria pele. Então me pergunto até hoje o por que daquele dia estar tão comum.

O celular vibra. Mensagem! Abro e me deparo com uma foto estranha. Uma coisinha meio amassada, com um olho um pouco mais aberto que o outro, a boca torta, as mãos fechadas em punhos. Meu deus! Alguém nasceu! Que maravilha! Que carinha de joelho!

Como se fosse normal nascer. Vestir de rosa ou azul-bebê, enfeitar o lugar com bichinhos, falar errado. Admiro quem vem. Deixa de lado todo aquele universo paralelo pra crescer aqui nessa terra em meio a tanta mentira.

Achei engraçada a forma de comunicação. Quando alguém morre ninguém tira foto e manda pelo celular. Mas notei que para ambas ocasiões há flores.

Ah, as flores… Representando a natureza que se faz ciclo imortal. Nasce e morre e assim é infinitamente imortal. Passa por cima do concreto, resistirá até o último segundo à qualquer abuso. E será que existirá o segundo final da natureza? Não creio.

Olho pro céu. Nenhum telefone toca, nenhum celular vibra. As buzinas estão distantes, as vozes são quase mudas. O vento canta alto e não há chão. O céu tem todas as cores e todas as dimensões. O céu tem todos os amores, e é no céu que está o ar que respiramos.

Tantas pessoas se vão... Será que é por isso que o céu é tão imenso?

sábado, 10 de janeiro de 2009

Desamores

     Debruçada na varanda, ele me abraçava, me envolvendo. Não éramos ninguém menos que amantes errantes. Saboreando a chuva, sentindo toda sua presença em mim, comecei a ter um desejo imenso: o de cozinhar para ele! Não sou uma exímia na cozinha, mas achei que pudesse fazer algo simples e saboroso.

   Mexendo lentamente o spaghetti para não quebrar, a fumaça de água fervente foi subindo pelo meu colo, se arrastando acima, pelo meu pescoço, atingindo a lateral do rosto, se emaranhando, já morna, nos meus cabelos presos. O silêncio era comunal de uma cozinha, apenas se ouvia o tilintar de tampas de panela. O macarrão escoando a fervura da água ralo abaixo como se fosse queimando garganta adentro, me impedindo de falar qualquer coisa sentimental que pudesse nos levar à um passado remoto. O macarrão al dente depois de despejado na travessa recebeu o molho. Devagar passeando pelo seu corpo esguio, transformando em vermelho o que era branco. Paixão?

   Então eu o vi ali, sentado na mesa, com aquele sorrisinho meio de lado, os olhos brilhando, fixos em mim. Apenas o servi, não o fitei. Mas de soslaio segui seus movimentos. Pegou rapidamente o garfo e se pôs a comer. Depois de enrolar os fios loiro-ruivos em seu garfo, levou-o lentamente em direção à boca como se fosse um gesto sagrado. Abriu a boca, não muito mas o suficiente. Alguns fios se soltaram do garfo e bateram na parte inferior de seus lábios. Ele piscou forte assim que sentiu a quentura. Depois rapidamente o spaghetti foi inserido para o inteiror de sua boca e um gemido de satisfação saiu. Foi alto e curto e me fez sentir orgulho de mim mesma. Um raio forte ecoou no céu e nossos suspiros se tornaram curtos por dois segundos.

    Servi o vinho que se esparramava pela taça assim como a chuva se esparramava pelas terras do mundo naquele momento. O líquido ia acariciando as curvas da taça até cansar de balançar pelas suas extremidades. Algumas pequenas bolhinhas se formaram. Sem formalismos, ele pegou a taça (como quem pega um copo de cerveja) e tomou dois goles grandes. Senti que o vinho desceu sua garganta abaixo, rasgando, mas de forma sútil. Assim como eu o tratava muitas vezes.

    Pratos sujos, talheres cruzados, camisa branca manchada com o sangue macarrônico. Os botões foram abertos lentamente, um a um. Passos errantes, bocas desencontradas, e a luz apagou-se.

    Amanheceu. Ainda chovia mas percebi que ele havia ido embora. Vi que bebeu uns goles de café do dia anterior e saiu. Fiquei imaginando o que pensaria sua mulher ao ver a mancha de molho em sua camisa. Mas lá fora, já com o sol saindo, ele tiraria a camisa, jogando-a pra um mendigo. Da mala, tiraria uma camiseta limpinha, daquelas que se usa em almoços familiares de domingo, e vestiria. Ao descer do ponto de ônibus perto do apartamento dela, compraria flores. Aquelas que eu nunca cheguei a receber. Arrumaria o cabelo, tocaria a campainha. Sorriria ao ver seus olhos, tão limpos quanto o céu azul daquela manhã.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O furo da bolha para 2009

"Amor, paz e dinheiro todo mundo deseja, todo mundo quer."

   

    Faltam algumas horas para mudar o calendário. Daqui a pouco será outro ano. Para alguns isso não faz a menor diferença. Para outros, é motivo de simpatia, de mudar de vida, de tudo! Diria que estou pendendo para o lado daqueles que gostam de fazer seu "fechamento anual". Não que eu acredite nessas simpatias ou que eu leve muito a sério esse rito de passagem, mas acato o final de ano como uma oportunidade de rever os acontecimentos da minha vida.

    O ano, por mais rápido que passe (ou por mais devagar que passe), tem inúmeros acontecimentos que não devemos deixar passar em branco. A maioria deles são pequenos e nem percebemos que, de alguma forma transformam alguma coisa em nós. Mas eles, talvez, sejam os mais importantes. Felizmente, percebi o efeito de um deles.

    Todo o estresse cotidiano me tornou cada vez mais egoísta fazendo com que eu me relacionasse com total falta de harmonia com as pessoas. Um estalo, num dia, de repente, se fez na minha humilde cabeça e levantei querendo mudar: cumprimentei o sol, os passarinhos, a poluição... Passei o dia todo sorrindo, manti toda a calma e a paciência que deus me deu, tentei ser correta e esclarecida. E assim, mais ou menos, se sucede até hoje. Em parte, funcionou. Me tornei mais leve e consegui lidar melhor com as pessoas.

    Até aí, tudo bem. O mais difícil foi perceber que por mais que eu me esforce, muitas pessoas não estão nem aí pra serem mais corretas, mais sorridentes e comunitárias. Mais difícil ainda foi perceber que eu não faço esforço nenhum para ajudar essas pessoas à acenderem esse espírito dentro delas. Não é uma ajuda mútua continuando assim cada um dentro da sua própria bolha.

    Sim, eu sei que cada um tem seu jeito de ser. Uns são mais simpáticos e prestativos que outros. Outros são mais conservadores e quietos que uns. Mas não digo que temos que mudar o que realmente somos. Isso deve permanecer na bolha. O problema é que nesse mundo, tem milhões de bolhas que pensam em contruir um universo próprio dentro delas. E não é bem assim.

    Você que está lendo, sei bem que está nem aí. Sei bem que você está mesmo é planejando sua própria vida e esqueceu das pessoas e do mundo a sua volta. Respeito muito esse seu planejamento e não acho errado. Pode continuar na sua bolha, mas não esqueça de que, além dela, tem um mundo enorme pra ser encarado, vivido e compreendido.

    Reclame sim da corrupção no governo do país, das pessoas que jogam lixo no rua, da fome mundial, da má educação, dá má distribuição de renda. Reclame muito e continue planejando apenas a sua bela vida.

    Para 2009 recomendo que quebramos um pedacinho da nossa bolha e deixamos o ar maravilhoso da vida corrupta entrar. Sem deixar nossos planos pra trás, mas sem deixar também a vida em comum para trás.

    Amor, paz e dinheiro todo mundo deseja, todo mundo quer! Desejar e querer isso é fácil. Só vamos conseguir isso se cumprirmos o básico que é respeito e sinceridade.

   Desejo a todos muito bom senso, paciência e calma, sentimento de luta e sentimento de ajudar o próximo.

 

sábado, 1 de novembro de 2008

Momento de transição.

"O que sentimos, não o que é sentido,

É o que temos.

Claro, o inverno triste

Como à sorte o acolhamos.

Haja inverno na terra, não na mente.

E, amor a amor, ou livro a livro, amemos

    Nossa caveira breve."


Ao renascer pela manhã, vi um sol leve e uma brisa fresca bater. Não queria mais nada! Sozinha, coloquei uma Ella Fitzgerald de fundo e tomei meu café da manhã filosófico. 

Pensando nas coisas da vida, me senti tão bem quando pensei sobre como estava me sentindo naquele momento e em como estou me sentindo nesses tempos e concluí que me sinto completa.

A completeza abrange ter paciência e uma mente consciente. E é isso que tenho aprimorado durante uns bons meses. Nessa manhã, ao mentalizar sobre as coisas da vida, percebi que esse aprimoramento está dando certo.

Não que eu tenha me educado pra chegar a isso com esforços evidentes e consideráveis. O resultado veio pela simples vontade verdadeira de mudar meu eu.                                                                                             (E é essa vontade verdadeira que deve motivar as pessoas a fazer qualquer coisa.)

Mudando, pois, eu mesma para uma cônscia mente, poderei contribuir com o mundo, me adaptar melhor ao mundo, compreender mais e assim ajudar as pessoas para que, todos juntos, possamos fazer desse mundo, um mundo melhor. (E isso não é utopia (e nem socialismo)!)

Depois de adentrar-me em tantas camadas da minha (in)consciência, lembrei-me de Alberto Caeiro - sobre não pensar em nada mesmo já pensando. Logo, pensei em Ricardo Reis e nas suas inspirações em cima do Estoicismo e do Espicurismo.

Fui atrás de informações sobre essas doutrinas filosóficas e achei um blog com muitas informações (muitas das quais nem li mas que mesmo assim vale muito a pena ler alguma coisa): http://www.silvino.blog.br/2008/06/epicurismo-e-estoicismo.html

E muito do que sempre pensei já tinha sido pensado a muito, muito tempo atrás pelos barbudos com trajes de lençol.                                                                                           A busca da satisfação pessoal, do prazer pela espiritualidade que é alcançada através do equilíbrio.

O afastar-se das paixões também tem a ver com isso. Entenda paixão como um sentimento ou emoção levados a  um alto grau de intensidade que se sobrepõe à lucidez e à razão.  (Já dizia o grande Aurélio de Holanda!)

Nem sempre é possível afastar-se das paixões. Quase nunca, talvez. Mas estou numa fase de transição e de concentração nas realizações pessoais e por isso preciso de um certo equilíbrio.

Voltando para a poesia, no momento não leio nem Alberto Caeiro nem Álvaro de Campos. O Ricardo Reis aqui é o meio.

O meio que representa, de forma positiva, uma passividade para encarar essa fase de transição. Observo, faço o que tem que fazer, mas não me manifesto. Se for sofrer, fico calada. Se for pra extravasar, tomo cuidado. Se for pra amar, então já amo e isso não se mede quanto à pessoas e coisas. (Não caberia nem mencionar isso.)

Minha hora e minha vez há de chegar mas não agora. Agora é a hora do aprimoramento.


"Quem diz ao dia, dura! e à treva, acaba!

E a si não diz, não digas!

Sentinelas absurdas, vigilamos,

Ínscios dos contendentes.

Uns sobre o frio, outros no ar brando, guardam

O posto e a insciência sua."


"No mundo, só comigo, me deixaram

Os deuses que dispõem.

Não posso contra eles: o que deram

Aceito sem mais nada.

Assim, o trigo baixa ao vento, e, quando

O vento cessa, ergue-se."

Poesias de Ricardo Reis.

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