segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Analuz retorna para a capital.

Há tanto tempo Analuz não via sua família e seus amigos e agora finalmente retornava. Carregava consigo toda a bagagem que a vida fora de sua cidade natal havia lhe proporcionado. Estava ansiosa. Sabia, porém, que não entraria em choque quando se colocasse lado a lado as realidades diferentes que agora separavam ela de seus familiares e amigos.

Ao chegar na capital, Analuz deu um salto de exclamação! Aquela cidade não a pertencia e nunca a pertenceu.  Tantas pessoas juntas andando cada uma dentro de suas bolhas – quando se esbarravam, nada de diferença fazia.  O silêncio era ensurdecedor. Só se ouvia o barulho de cada bolha se locomovendo pelos corredores da estação. E quantos corredores. Essa cidade cresceu. Mas não é um sinônimo de progresso.

Analuz de repente percebe o que aconteceu. Esse individualismo enraizou-se no coração dos homens que andam depressa – sem rumo, acreditava ela. Mas ela achou que esse fenômeno não fosse afetá-la.

Mas Analuz percebeu que todos estavam contagiados por essa doença.

 

 

E cada um se foi, seguindo distintos caminhos. E cada um se foi preocupado com seu próprio caminho. Que pena deles. Quando um caminho se cruzar com o outro, não saberão como agir, o que fazer. Será o caos. Ninguém saberá lidar com a experiência do outro, causando assim, uma imensa discórdia universal.

 

 

Precisou de um tempo pra que Analuz percebesse que  a doença do individualismo estava enraizada até nas pessoas mais próximas dela…

Era horário de verão, hora do chá no jardim provinciano. Estavam todos reunidos. Para quê eu não sei. Mas parecia que o propósito era unir pessoas queridas que não se viam há muito para uma conversa descompromissada naquela tarde de chá. E tudo corria harmoniosamente bem quando Analuz teve um colapso! Ela percebeu, em instantes de segundo, que estava se sentindo perdida naquele mundo tão individualista, pois tinha sua própria bolha mas algo a dizia, naquele momento que a deveria perfurar, sair, abraçar as pessoas, gritar até ficar sem voz.

Analuz percebeu que todos ali, cada um dentro da sua própria bolha, achavam que, unidos por uma causa comum, estariam furando suas bolhas também. Mas não. O egoísmo, quando é forte, só engrossa mais a capa da bolha. E foi assim que Analuz viu que as pessoas, até as mais próximas, estão regadas de egoísmo. Andam cada uma dentro de suas próprias bolhas no meio de todos para simplesmente se sentirem como parte do todo, como se não fossem egoístas o suficiente para estarem ali na multidão. Mas de nada adiantava . O retorno à capital foi para Analuz uma maravilhosa descoberta e foi também um alerta: o egoísmo era o novo nazismo da nação.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A igreja do outro lado da rua.

Haviam seis mosquinhas no box do meu banheiro. Surgiram de repente. Matei três com o pano do chão e elas caíram mortinhas, uma a uma. Quando fui tomar banho, aqueles cadaverzinhos foram escorregando ralo abaixo junto com o sangue que denunciava a minha falta de gravidez. Faltavam três.


Na rua, as luzes do poste iluminavam as lojas há muito fechadas. Fechadas há mais de 24 horas se não me falham as contas. Poucos carros, quase nenhum transeunte. Caminho na direção da avenida principal. Ao longe, naquele prédio antigo, da meia porta que estava aberta avistei uma luz amarela. Ninguém à vista. Entro pelo corredor vazio, subo as escadas. Tudo escuro. Sento. O filme começa.


Me sentia estranha. Caminhando pelas ruas, as luzes do poste iluminavam as lojas há muito fechadas. Fechadas há mais de 24 horas se não me falham as contas. Barulhos. Burburinhos. As poucas pessoas, por um instante, me pareciam meros figurantes. Mas eu não era a atriz principal.

Passo em frente a um portão. Um portão de casa em meio a tantas lojas. Lojas fechadas há mais de 24 horas. Tenho certeza. Mas aquele portão… A placa indicava: Dr. Otsuki ou algo do tipo. Não lembro se era um dentista ou um oftalmologista. Não importa. Acho que era Otsuki o que estava grafado na placa de madeira pendurada em cima do portão. Um portão de casa em meio a tantas lojas. Olhei brevemente, de canto de olho, rápido, bruscamente. Mas vi, mesmo assim, a imagem. Para além do portão, avistei a rua paralela da que eu me situava.


A rua paralela da que eu me situava tem uma igreja. A única coisa alta e luminosa num diâmetro de 60 graus em relação a esse bairro. E quando dá três horas, três badaladas. Faltavam matar três moscas. E quando são três horas e meia, o sino só bate uma vez. Dá pra ouvir daqui de casa. Quando há silêncio eu conto as batidas. Uma por uma. Três moscas. Ainda vivas no box do meu banheiro.


Mas eu estava ali, na frente do portão do Dr. Otsuki vendo a igreja que ficava do outro lado da rua. Mas como? Me parecia que para além do portão não tinha uma porta concreta como tem em todos os estabelecimentos que tem um portão. Não tinha nada além do portão. A casa era vazada e dali eu podia ver o outro lado da rua. Mas o que eu via especificamente do outro lado da rua era a igreja. Perfeitamente enquadrada no portão do Dr. Otsuki.


Três moscas. O sino bate. Uma única vez. Meia hora de alguma hora havia se passado. Ao olhar pro chão encontro o trançado de canudos que nunca consegui arrematar.

Sim, nos bares sujos, na hora do tédio ou do nervosismo, escolhia um canudo rosa e um azul e os entrelaçava como uma trança de dois fios. Mas eles sempre se soltavam…

O sino da igreja que podia ser vista através das frestas do portão do Dr. Otsuki que estava em meio a tantas lojas que estavam fechadas há mais de 24 horas, tenho certeza, bateu onze vezes.

Entrei em casa. As três moscas que faltavam matar haviam sumido.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Coração à mesa.

Hora de preparar o jantar: muito tofu, suco de laranja e sopa de galinha. De sobremesa, gelatina.

Reparei que meu coração parece uma gelatina – isto foi mesmo hoje, quando o apalpei na hora do pôr do sol. Não é como o gelo, duro e frio. Não é como a água que corre, límpida.

Meu coração é mole mas consistente. O que é isso, então?

Um pôr do sol belíssimo bate à minha porta. Atendo. Ele sorri. O deixo entrar. Vestido todo de roxo, azul, vermelho, amarelo queimado, estava especialmente bonito. Mas depois se envergonhou. Foi indo tímido embora. Não senti aproximação. Cadê a fervura fria de um fim de tarde?

Meu coração quis explodir de alegria, dor e mistérios mas ele não conseguiu. Só ficou ali observando o sol se pôr.

Me bateu um cansaço. Cansaço de quem cutucou a pedra imóvel. A fez mexer, a acolheu e depois que a pedra ganhou vida, fui abandonada. Isso realmente cansa. Não por insistência mas porque parece que dói.

Cansei. Senti por dentro algo balançar. Queria que essa coisa – o coração – derretesse de amores. Mas ele não derreteu.

Meu coração é uma gelatina. Vou continuar conservando na geladeira. Até ser comido. Até ser servido, finalmente, na mesa do jantar de um futuro amor passado.

pinacoteca 011

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

I once had a girl, or should I say, she once had me…

casal

Uma das minhas recentes paixões literárias se resume em um autor contemporâneo e muito marcante. Com sua narrativa novelística, Haruki Murakami desenrola seus romances de forma que sem perceber, você já está submetido aos entrelaces da história.

É a segunda obra do autor que leio e já virei fã. Em Norwegian Wood, Toru vive em uma Tóquio com as novidades da boa cultura dos anos 60 e também vive seus embates internos que caminham entre angústia e amor, passando por paixões e sexo, com um bocadinho de jazz e uma boa pitada de Beatles.

Após reencontrar Naoko, a namorada de seu falecido melhor amigo, ele se apaixona perdidamente por ela. Isto somado à suas outras desventuras da juventude como sua ida à faculdade, as dificuldades de conviver com desconhecidos e novas paixões, fazem do enredo uma teia que a princípio parece embaraçosa, mas no final você fica com a impressão de que ao desembaraçar, um nó é formado. Ou seja, as coisas caminham, mas não necessariamente pra frente.

É disso que faz Murakami um bom romancista. A novela é trágica porém sutil. É doce e amarga. Me agrada sua sensibilidade de retratar a tragédia com doçura e lirismo.

Resumiria que este autor, em suas únicas duas (e poucas) obras que li, traz uma leitura que transparece toda a beleza que uma tristeza densa e mágica pode ter. 

  Murakami em momento reflexivo.

capa do livroUma das versões de capas para o livro  

Fonte imagens: http://www.flickr.com/photos/zengkilebron                                                                       http://www.flickr.com/photos/manganite

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Será que é por isso que o céu é tão imenso?

O telefone toca. Estremeço. Alguém atende. Fecho os olhos, apertados. Me contraio por uns segundos. Pela voz de quem atendeu percebo que não é nada grave. Relaxo.

Um telefonema pode trazer uma notícia pesada, nada agradável. Foi assim da última vez. (Não da última vez que alguém morreu, mas da última vez que recebi um telefonema pesado.) Estava a escovar os dentes, era tarde da noite. Não esperava nada da vida naquela momento. Mas também não esperava nada da morte. O dia estava tão comum. Me pergunto até hoje o por que daquele dia estar tão comum.

Não é normal alguém virar uma estrela, um anjo. É algo de supremo respeito e grande beleza alguém deixar de lado todo essa matéria que nos prende. Admiro quem vai. Vai e não leva nada. (Ou leva-se tudo.) Deixa tudo aqui, até a própria pele. Então me pergunto até hoje o por que daquele dia estar tão comum.

O celular vibra. Mensagem! Abro e me deparo com uma foto estranha. Uma coisinha meio amassada, com um olho um pouco mais aberto que o outro, a boca torta, as mãos fechadas em punhos. Meu deus! Alguém nasceu! Que maravilha! Que carinha de joelho!

Como se fosse normal nascer. Vestir de rosa ou azul-bebê, enfeitar o lugar com bichinhos, falar errado. Admiro quem vem. Deixa de lado todo aquele universo paralelo pra crescer aqui nessa terra em meio a tanta mentira.

Achei engraçada a forma de comunicação. Quando alguém morre ninguém tira foto e manda pelo celular. Mas notei que para ambas ocasiões há flores.

Ah, as flores… Representando a natureza que se faz ciclo imortal. Nasce e morre e assim é infinitamente imortal. Passa por cima do concreto, resistirá até o último segundo à qualquer abuso. E será que existirá o segundo final da natureza? Não creio.

Olho pro céu. Nenhum telefone toca, nenhum celular vibra. As buzinas estão distantes, as vozes são quase mudas. O vento canta alto e não há chão. O céu tem todas as cores e todas as dimensões. O céu tem todos os amores, e é no céu que está o ar que respiramos.

Tantas pessoas se vão... Será que é por isso que o céu é tão imenso?

terça-feira, 2 de junho de 2009

Ubachuva – parte 2

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sexta-feira, 3 de abril de 2009

Uma carta para a minha nêga.

Marília, 3 de abril de 2009.

Lu,

Tenho quase certeza de que as coisas aí estão muito bem. Imagino que você esteja num lugar maravilhoso.

Aqui está tudo muito bem apesar de tudo o que aconteceu. Acho que você deve ter visto por aí uma tia da mãe e o irmão do pai, que acabou de chegar. Acredito que você os tenha recebido bem.

Daqui uns dias vai fazer quatro meses que você foi para o seu eterno Ceará, pra sua eterna Aparecida. Ainda guardo a santinha que você me trouxe de lá. É uma lembrança muito significativa pra mim. Eu deixo a lembrancinha junto com as minhas coisinhas da escrivaninha, sabe? Mas ás vezes, na hora de dormir, eu pego ela e deixo no móvel perto da cama. Parece que durmo melhor assim!

Você já deve estar sabendo. Depois que você foi, lá em casa ficou uma bagunça! Tudo de pernas pro ar. A mãe quase enlouqueceu. Você imagina, né? Mas é claro que eu ajudei ela. Você sabe que eu sei fazer as coisas de casa mas não fazia porque tinha preguiça. Mas depois que você foi eu sabia que eu tinha que ajudar a mãe e ajudei. Vai ficar orgulhosa de mim, não vai!? Ah, o pai você já sabe! Só ficou falando, botar a mão na massa mesmo foi uma vez ou outra. Até imaginei você aí fazendo cara feia pra ele. Ai, mas você ia dar risada mesmo era da gente botando ele pra trabalhar! Nossa, como você ia rir, Lu!

Sinto falta da sua risada também. E de você falando com os baldes, com a máquina de lavar, com a vassoura. Se você tava na cozinha dava pra te ouvir lá do quarto. Quantas vezes já não fechei a porta pra tentar estudar. E você ainda me aparecia lá dentro falando e falando e guardando as meias na gaveta das calcinhas. Como já fiquei brava com isso. Você era tão destraída… Depois de um tempo eu deixei pra lá. Deixa ela colocar do jeito dela, eu pensava, que depois eu arrumo.

Afinal, nada tinha eu que reclamar de você. Sabe, quando as pessoas vão embora, a gente começa a pensar em tudo o que ela foi e representou pra gente, né!? E sabe o que eu pensei de você? Que sua honestidade e simplicidade foram de uma importância imensa na minha vida.  Você não imagina o quanto sua simplicidade é linda. Bom, você deve estar se perguntando o que seria “simplicidade” e eu te respondo: simplicidade é você.

Agora eu to longe de casa, Lu. Mas não fica aflita, não. Tô aqui pra estudar, Lu. Pode parecer um absurdo pra você mas eu te juro que é uma escola boa. Te juro que vale a pena e te juro que a mãe deixou! Lu, ela é muito corajosa, você não acha?! Queria saber o que você ia achar dessa minha loucura de mudar de cidade pra estudar. Com certeza ia dar um tapinha na minha bunda e me chamar de danada. Ia falar que eu era saidera mesmo.

Mas olha só, aqui eu mesma tenho que lavar minha louça, fazer minha comida, varrer a casa. Lavo até o banheiro! Tenho que fazer minhas compras, dormir cedo e além de tudo isso, estudar muito. Imagino que agora você esteja impressionada e espero que isso seja uma forma de demonstrar orgulho por mim.

Muito do que você me ensinou eu uso aqui. Todos os anos que fiquei te observando trabalhar eu faço igual na minha nova casa. Mas o que mais tomo de exemplo de você é a honestidade e a simplicidade. E o amor, claro. Sei que seu coração é forte. Tão forte que não aguentou. Parou de bater porque se fosse pra bater mais, bateria pra sempre.

O sempre agora é onde você está. Isso me deixa muito feliz mas também me dá um aperto. Você não sabe o quanto faz falta. Queria que você estivesse lá em São Paulo com a mãe pra ajudar ela. Ela conseguiu uma moça pra ajudar ela, não fique com ciúmes. A mãe disse que ela é muito devagar. Mais que você! Mas você sabe, né? Você sabe que nada se compara a você. Porque você era integrante da família. Amiga da mãe, companheira do pai e minha segunda mãe. Agora a gente tá aqui, se virando sem você.

Sabia que a Dedé tá cada vez mais barriguda?! E ela tá sempre bem humorada, que nem você. Faz tempo que não a vejo pois estou aqui em Marília agora. Mas depois eu vou perguntar pra mãe se ela tem visto a Dedé passeando com os cachorrinhos da senhora do 82 lá em baixo. A Beti conseguiu emprego numa fábrica e tá ganhando bem! Bom, sobre suas filhas a senhora deve saber. Acredito que elas oram sempre por você. Não vou comentar nada sobre o Zé, isso você conversa com a mãe. Vocês é que ficavam falando dele e eu não sei muito o que dizer sobre essaa coisas feias que ela fazia e continua fazendo. Ai, que coisa!

Queria saber se você é um anjo agora. Queria saber o que você faz aí. Você consegue me ver aqui em baixo? E se você está perto do todo poderoso, pergunta pra ele: por quê? Pergunta, Lu. Não precisa ter vergonha, ele vai te responder. Eu sei que você também quer saber o por que. Eu sei que é difícil pra nós. Mas tá tudo bem. Eu confio nesse mundo espiritual. Sei que você está aí pra atingir um estágio indescritível que nós seres humanos não conseguimos atingir. Por isso, pra te ajudar, eu faço muitas oraçõe e oferendas. Sempre agradeço por você existir.

Sinto muito a sua falta. É uma saudade que bate forte no peito, mas as lembranças são ótimas. E isso é tão bom…

Mais uma vez, e diretamente através dessa carta, agradeço muito por tudo que você fez por mim e pela nossa família. Te admiro, por ter sustentado sua família praticamente sozinha. A senhora conseguiu deixar uma casa pra eles! Te admiro por você ter sido quem você sempre foi e que em mim deixa um buraco no peito mas que ao mesmo tempo deixa um amor imenso, uma consideração sem igual.

Com amor e muitas saudades,

          da sua nêga

                        Carla

 

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Ubachuva - parte 2

Para relembrar, aqui está a Parte 1.

 A caminho de Paraty avistamos, em plaquinhas ao longo da estrada, um restaurante chamado Cantinho da Titia. As plaquinhas anunciavam comida caseira, cachaça caseira, doces caseiros e café quentinho. Ficamos curiosos mas um pouco desconfiados e passamos reto.

Chegando em Paraty, uma confusão. Tudo cheio e tudo chuvoso e a visão de dentro do carro era desanimadora.

 

Mas mesmo assim, resolvemos dar uma chance pra Paraty e dar mais uma volta. Só que a chuva continuava e engrossava cada vez mais. A visão que me ficou na cabeça foi a clichê Veneza brasileira: o rio invadindo a cidade.

 

Como estávamos já desanimados e não vimos nada que nos fizesse realmente ficar ali, pegamos a estrada de volta. Aí a fome foi chegando e com aquele “friozinho” e aquela chuvinha, deu vontade de uma comida bem caseira e bem feitinha.

Então, ao longo da estrada, avistamos mais propagandas daquele tal de Cantinho da Titia: “Comida caseira”, “Café da tia” entre outras atrações que eu considerei como imperdíveis!

Entramos com o carro. Ali no fundo avistamos uma casinha bem simples onde, na frente, havia uma varanda enorme cheia de mesas. Fomos recepcionados por milhares de beija-flores que rondavam aqueles potinhos de água com açúcar que ficam pendurados. Uma cena encantadora que iluminou meu dia chuvoso.

Fomos muito bem recebidos pelas tias simpáticas. Pedimos logo de cara o prato que vem galinha cozida e a fome foi só aumentando.

Enquanto esperava o prato chegar, dei uma volta pela propriedade e encontrei na lateral da casa, as galinhas e galos que virariam comida. Do outro lado da casa, mais ao fundo, uma pequena horta. As mesas ficavam num espaço grande que mais parecia um quintalzão. Nesse quintal tinha um forno a lenha. Que delícia! E gatinhos passeavam pelo local e ás vezes paravam pra fitar os beija-flores, o que era difícil pois esses passarinhos são muito rápidos.

Quando meu maravilhoso suco de laranja chegou, sentei na mesa e me deparei com duas folhas escritas pelas tias. As transcrevo aqui:

 

“Carta de Agradecimento

Esta é uma carta de agradecimento aos fregueses do Cantinho da Titia, aqueles que nos deram a primeira oportunidade. (…) Pessoas que não se importaram com a simplicidade do nosso cantinho.

Minha irmã mais velha começou o Cantinho da Titia. Ela vendia broa de fubá nas margens da rodovia. Depois nos mudamos pro lado de cá, mas funcionávamos precariamente porque não havia energia. As coisas melhoraram pra nós depois que a luz chegou. Então unimos a vontade de trabalhar com a ajuda do governo e de vocês, que nos dão a melhor parte.

(…)

Esta não é uma história de grandes sucessos e feitos, mas de luta por uma vida com dignidade. A vida agora não é mais tão penosa. Não dependemos tanto da lavoura, não precisamos mais explorar a mata. Plantas, animais e árvores estão sendo preservados. Esta mata é para nós, extensão do nosso quintal. Estamos vivendo em harmonia com a natureza.

Escrevi estar carta não para apelar, mas para agradecer a vocês. Eu não sei muito bem, mas acho que isso é distribuição de renda. O governo nos deu a vara e nós aprendemos a pescar vocês que nos ajudam a termos uma vida mais digna.

Muito obrigada

     assinado a faladeira e todas as titias

            Zenaide, Gercina e Maria”

 

 

 

“Querido freguês, 

Para nós do Cantinho da Titia, é um privilégio a sua presença aqui. Nós somos uma família e trabalhamos em três irmãs, duas cozinheiras e uma faladeira.

Nossos pais chegaram aqui em 1957, antes da construção da Rio-Santos. Junto com mais 54 famílias, migraram do Espírito Santo e de Minas Gerais. Minha mãe, hoje com 79 anos, conta como era a vida.

Aqui era uma terra desabitada e andava-se horas dentro da mata para se chegar a Paraty. Era comum esbarrar com uma onça atacando galinhas. Os jacús, pássaro grande e barulhento, comiam no quintal com as galinhas. As pacas, tatus, quatis, tamanduás e codornas do mato eram tão comuns que qualquer criança sabia que bicho era. Hoje se caminha horas dentro da mata para ver alguns bichos.

Quase não trabalha-se mais na roça. Mudamos os nossos hábitos, plantamos o suficiente e preservamos mais a natureza porque as pessoas que vem aqui gostam da mata. Não derrubamos mais as árvores e hoje vivemos do que vendemos aqui. Por isso você também está contribuindo para a preservação da natureza da região mesmo sem perceber.

(…)

Aqui é uma reserva federal criada em 1972. Vivemos em um verdadeiro paraíso, privilégio de poucos no mundo. Nos sentimos como parte da fauna e flora brasileira, a protegemos e somos protegidos por ela. Esta mata que você está vendo está praticamente intacta. No nosso sítio não mudou muita coisa desde que nossos pais chegaram aqui.  Quando alguém me pergunta se eu planto alguma coisa, eu digo que não, pois a natureza já plantou há muito tempo. Eu me sinto apenas uma guardiã para as futuras gerações.

    Obrigada pela sua preferência.”

 

Achei boa a idéia de escrever isso e deixar em cima das mesas para que todos lessem. Nota-se que foi feito com simplicidade mas com intuito de mostrar uma história digna. Percebe-se o esforço e o carinho que essa família coloca no seu trabalho.

E isso foi muito bem percebido pela comida que acabara de chegar. Saindo fumacinha, impregnando o ar com aquele cheirinho de comida fresca e bem feitinha. A comida estava uma delícia!

De barriga cheia, ainda ficamos mais tempo conversando com as tias. Conhecemos seus sobrinhos que estavam por lá ajudando. Umas gracinhas, crianças lindas. Não é trabalho infantil, mas sim férias na casa da titia. Ajudam com vontade. Certamente, se não quisessem não seriam forçados. Simpáticos e prestativos, anotaram os pedidos, sorriram, conversaram.

Depois as tias nos mostraram os doces, ofereceram o café a lenha, indicaram cachaças.  Meu pai, apreciador de bebidas que é, se interessou. A tia disse que a produção daquela cachaça fica ali perto, falou como se chega lá. Não pensamos duas vezes: compramos uns docinhos de doce de leite, agradecemos a hospitalidade e partimos.

Seguindo a estrada, entramos numa estradinha de terra que nos levou a dentro pela mata até chegarmos num sítio. A chuva havia dado uma trégua e o sol ensaiava tímido uns poucos raios.

Ali, num sítio chamado Cabral, é produzida a cachaça Coqueiro, que dizem ser a legítima pinga de Paraty. Sua produção mantem os moldes artesanais de se fazer cachaça. “Segue rigorosos padrões de higiene e controle em todas as etapas de produção, desde a colheita e moagem da cana-de-açúcar, a decantação e filtragem do caldo de cana, a preparação do mosto, a fermentação e a alambicada, aproveitando-se o chamado "coração" da destilação, ou seja, desprezando-se o produto inicial (a chamada "cabeça") e o final (o chamado "rabo", "cauda" ou "água-fraca").” ¹

Logo que chegamos, já nos convidaram pra mostrar o processo de produção.

A moagem da cana.

Depois da moagem, a cana é decantada e filtrada e em seguida adiciona-se no caldo da cana nutrientes naturais.

Em seguida o caldo é fermentado - o legal é que não é usado nenhum aditivo químico no processo. Quando atinge certo ponto, o caldo está pronto para ser enfim destilado.

A cachaça é engarrafada e aí é só tomar!

Há também a fabricação de cachaças curtidas em ingredientes especiais como maracujá, laranja, coco, etc.

Depois de termos visto todo o processo, chegou a hora da degustação. Conversa vai, conversa vem e acabamos levando garrafinhas de pinga pra todos os parentes!

Eu nunca tinha visto um processo de destilados e achei interessante compartilhar isso aqui. Acabei achando na internet o site da cachaçaria.

Cachaça Coqueiro                                                                                                 

No site, está a história dessa marca. Uma história que carrega o segredo da produção de muitas gerações fazendo assim, algo tradicional.

De barriga cheia e pinga tomada, novamente, seguimos viagem. Logo que entramos no carro, começou a chover. Dei risada. Aquela chuva estava querendo me dizer alguma coisa. Algo que só fui descobrir no fim da viagem.

¹ http://pt.wikipedia.org/wiki/Cacha%C3%A7a_Coqueiro

(Aguardem o Ubachuva – parte 3!)

sábado, 31 de janeiro de 2009

Ubachuva - parte 1

Minha temporada de férias em Ubatuba resultou em nada mais, nada menos que chuva! Certamente não é a atração mais esperada de lá mas todos sabem que vão vê-la. Os banhos de mar foram poucos, menos ainda os de sol. Mas, para a minha surpresa, minha viagem foi totalmente aproveitável!

Como na maioria dos dias, a chuva era bem fininha e não atrapalhava muito nas saídas de carro. E foi assim que começou a jornada cultural. Minha mãe sugeriu conhecermos a Praia da Almada com esperança do sol sair. E fomos.

Pela rodovia Rio-Santos, próximo da divisa São Paulo-Rio, mais ou menos no km 12, ao sair da rodovia, pegamos a estrada da Almada. Cheia de curvas acentuadas, descíamos e subíamos pela trilha com direito a barrancos imensos que nos mostravam vista para o mar.

Com o tempo daquele jeito, o clima era assustador. Para receber turistas, um totem feito de lixo logo no ínicio da estradinha sorria sarcasticamente dando boas vindas.

Depois de mais ou menos 4 km naquela estradinha, chegamos, finalmente, na praia da Almada. Para mim, exclusivamente naquele dia, estava mais para desalmada.

O clima da vila de pescadores era tranquilo e... molhado. Descemos do carro. Certamente, pensei eu, a praia, mesmo chuvosa é agradável, mas...

O tempo chuvoso e o vento forte desanimaram meus companheiros de viagem e eu. Os meninos do quiosque foram totalmente simpáticos, mas... decidimos não ficar ali. O mais engraçado é que a medida que íamos voltando as pessoas vinham chegando. Só faltava o sol sair!

Voltamos para a rodovia principal naquela animação: e agora? Vamos voltar pra casa?                                      Então decidimos ir até Paraty, já que estávamos bem próximos. No meio da estrada, e ainda naquela animação, vimos uma placa interessante.

Não custava nada conhecer a tal da Cahoeira da Escada e a chuva tinha cessado. Foi uma surpresa!                           A água vem lá do alto e com muita força corre pelos degraus da encosta abaixo. Uma estátua se exibe numa pedra enquanto os vistantes vão de um lado a outro da cachoeira através de uma pequena ponte, balançando suas câmeras digitais.

 

Como parte do Parque Estadual da Serra do Mar, a cachoeira recebe apoio do Núcleo Picinguaba, órgão que ajuda a manter as belezas naturais da região de Picinguaba, que fica na divisa São Paulo-Rio.

Na beira da cahoeira, há uma rústica lanchonete em que o proprietário, junto com sua mulher e seu filho, preparam maravilhosos lanches de lingüiça. A paisagem ficou gravada na minha memória como surreal: a cachoeira ao fundo, agressiva, barulhenta, banhando sua estátua assustadora em contraste com aquela pequena lanchonete e umas poucas mesinhas de plástico.  

A fumaça que vinha da chapa de sanduíches deixava o lugar com aspecto misterioso. Quando a fumaça se dissipou, ao fundo da lanchonete avistei uma placa e li: "Aqui reúnem-se caçadores, pescadores e outros mentirosos." Arregalei os olhos. Depois fitei o proprietário que, naquele momento, esquentava as lingüiças. De relance, fitei a estátua misteriosa. Então, para afastar o ar sombrio daquele dia, fui até o balcão e pedi um sanduíche! Um sanduíche maravilhoso! Ele prensa o pão com queijo e com a lingüiça com uma chapa de ferro e tudo fica delicioso. E a lingüiça é de qualidade, daquelas que você sabe que só pode ter vindo do interior.                           Depois do sanduíche, um bom gole de café esquetado a lenha completou a refeição. Ao sair, me virei e só então reparei na placa.

De barriga cheia e hipnotizados por tanta água, entramos no carro. Começou a garoar, como se São Pedro tivesse cronometrado nosso passeio fora do carro. Pegamos a estrada rumo a Paraty e seguimos viagem...

sábado, 10 de janeiro de 2009

Desamores

     Debruçada na varanda, ele me abraçava, me envolvendo. Não éramos ninguém menos que amantes errantes. Saboreando a chuva, sentindo toda sua presença em mim, comecei a ter um desejo imenso: o de cozinhar para ele! Não sou uma exímia na cozinha, mas achei que pudesse fazer algo simples e saboroso.

   Mexendo lentamente o spaghetti para não quebrar, a fumaça de água fervente foi subindo pelo meu colo, se arrastando acima, pelo meu pescoço, atingindo a lateral do rosto, se emaranhando, já morna, nos meus cabelos presos. O silêncio era comunal de uma cozinha, apenas se ouvia o tilintar de tampas de panela. O macarrão escoando a fervura da água ralo abaixo como se fosse queimando garganta adentro, me impedindo de falar qualquer coisa sentimental que pudesse nos levar à um passado remoto. O macarrão al dente depois de despejado na travessa recebeu o molho. Devagar passeando pelo seu corpo esguio, transformando em vermelho o que era branco. Paixão?

   Então eu o vi ali, sentado na mesa, com aquele sorrisinho meio de lado, os olhos brilhando, fixos em mim. Apenas o servi, não o fitei. Mas de soslaio segui seus movimentos. Pegou rapidamente o garfo e se pôs a comer. Depois de enrolar os fios loiro-ruivos em seu garfo, levou-o lentamente em direção à boca como se fosse um gesto sagrado. Abriu a boca, não muito mas o suficiente. Alguns fios se soltaram do garfo e bateram na parte inferior de seus lábios. Ele piscou forte assim que sentiu a quentura. Depois rapidamente o spaghetti foi inserido para o inteiror de sua boca e um gemido de satisfação saiu. Foi alto e curto e me fez sentir orgulho de mim mesma. Um raio forte ecoou no céu e nossos suspiros se tornaram curtos por dois segundos.

    Servi o vinho que se esparramava pela taça assim como a chuva se esparramava pelas terras do mundo naquele momento. O líquido ia acariciando as curvas da taça até cansar de balançar pelas suas extremidades. Algumas pequenas bolhinhas se formaram. Sem formalismos, ele pegou a taça (como quem pega um copo de cerveja) e tomou dois goles grandes. Senti que o vinho desceu sua garganta abaixo, rasgando, mas de forma sútil. Assim como eu o tratava muitas vezes.

    Pratos sujos, talheres cruzados, camisa branca manchada com o sangue macarrônico. Os botões foram abertos lentamente, um a um. Passos errantes, bocas desencontradas, e a luz apagou-se.

    Amanheceu. Ainda chovia mas percebi que ele havia ido embora. Vi que bebeu uns goles de café do dia anterior e saiu. Fiquei imaginando o que pensaria sua mulher ao ver a mancha de molho em sua camisa. Mas lá fora, já com o sol saindo, ele tiraria a camisa, jogando-a pra um mendigo. Da mala, tiraria uma camiseta limpinha, daquelas que se usa em almoços familiares de domingo, e vestiria. Ao descer do ponto de ônibus perto do apartamento dela, compraria flores. Aquelas que eu nunca cheguei a receber. Arrumaria o cabelo, tocaria a campainha. Sorriria ao ver seus olhos, tão limpos quanto o céu azul daquela manhã.