domingo, 29 de junho de 2008

Coitado do Bom Jesus


Em mais uma de minhas viagens de família que duram apenas um dia, resolvemos ir para Itu.No caminho, sugeri passar por Santana de Parnaíba, mas como passamos a saída na estrada, fomos para Pirapora de Bom Jesus.

Legal, vamos ver a tal da imagem que acharam na margem do rio, tirar umas fotos, aumentar a cultura, né, pessoal, essas coisas...

Entramos na igreja principal, vimos a tal imagem. Não rezei o Pai Nosso, mas fiz uma singela reverência mostrandorespeito e fui embora.

Então, fomos para as margens do rio. A princípio, "margens de um rio de uma cidadezinha do interior" pode parecer a coisa mais fofa do mundo. Mas, ao aproximarmos dele, sentimos um cheiro horrível!





O rio Tietê corta o centro velho da cidade e por vezes, pode-se observar tapetes de espuma sobre suas águas. Este fato ocorre devido a proximidades da cidade, da Barragem de Pirapora do Bom Jesus, que tem por finalidade acumular água, para atender a Usina Hidroelétrica de Rasgão, que se situa pouco mais abaixo. As águas poluídas do Tietê, quando passam pelos seus vertedores ou pela sua tubulação interna de descarga, acabam por produzir muita espuma (proveniente da contaminação da água por dejetos domésticos, notadamente detergente).

A Barragem de Rasgão está localizada próxima à cidade de Pirapora do Bom Jesus e represa as águas do rio Tietê.

Quando o rio Tietê abandona a capital de São Paulo, ele inicia a sua descida rumo a cidade de Itu, e começa a percorrer um traçado sinuoso, esgueirando-se por entre diversas colinas, locais propícios para a construção de barragens.

Em um destes pontos foi erguida a Barragem Edgard de Souza, destinada a produção de energia elétrica em Santana de Parnaíba.

Um pouco mais a frente, quando o rio Tietê entra no município de Pirapora do Bom Jesus, foi erguida a Barragem de Pirapora do Bom Jesus. Esta barragem no momento, apenas se destina ao acúmulo de água, para ser utilizada na geração de energia elétrica pela usina de Rasgão, que se situa pouco mais abaixo do rio, ambas barragens construídas em trechos estreitos do rio Tietê.

Seus reservatórios não são de grande dimensões mas aproveitam todo potencial hidrológico do rio Tietê que mantém um fluxo constante de água, por todo o ano.

Texto retirado do site Wikipedia







No site da prefeitura de Pirapora tem uma notícia sobre o evento que ocorreu no Dia do Rio Tietê, que é em 22 de setembro.

O evento contou com palestras educativas, distribuição de mudas, oficinas de como fazer detergente biodegradável, etc.

Foi um dia para informar, educar e incentivar a população sobre o que realmente está acontecendo.




(imagem retirada do site prefeitura de Pirapora)


Eu poderia postar aqui todos os problemas do rio, mas creio que isso não é novidade para as pessoas, principalmente para nós, moradores da grande São Paulo.

Aproveitei para falar do rio porque quando passei por Pirapora e me deparei com aquilo, fiquei surpresa! Foi aí que eu parei para pensar realmente no que está acontecendo.

No site da ONG Rede das Águas, tem informações sobre o Projeto Tietê (projeto de despoluição), sobre as políticas e lesgislações que envolvem o tratamento da água e o debate da despoluição.
Lá também tem informações sobre as bacias hidrográficas do Brasil, que é interessantíssimo e que envolve outros problemas para serem resolvidos como, por exemplo, os do Rio São Francisco, que é outro assunto complicado e seríssimo sobre a natureza maravilhosa do "nosso" Brasil.
*Imagens de usuário do Flickr

domingo, 22 de junho de 2008

Momento desabafo-filosófico do dia


"...assim Lalinha recordava sua própria adolescência - que agora lhe parecia inflar do avesso, separada de tudo, desatadamente vivida, como se pertencesse a outra criatura.

Lembrava-se: de quando se isolava, aflita sem razão, e tremia de querer uma novidade de amor, espantosa salvação e espaço.

De repente, de si, achara um vezo, muito oculto, o de abraçar-se ao que estivesse melhor ao seu alcance, uma porta, o travesseiro, um móvel, abraçava, e recitava frases de arroubo.

...quando descobriu que, para a verdade do amor, era a necessária a carne: que sua carne doesse, leve, devagar, enquanto ela murmurava sua intransmissível paixão, e prometia e implorava.

...Sonhasse - mas como se em luta por defender-se de outros sonhos.

Nisso se refugiara, por um tempo, meses; se gradualmente, se de uma vez, nem sabia como se desabituara. ...Mas, segredo que não confiaria a ninguém, a nenhuma amiga. Passara.

Quando o primeiro namorado apareceu, o mais era já assunto remoto, sem lembrança. Daí o amor dispunha-se de brinquedo, namorava exercendo um jogo expansivo, que esperavam dela, emancipador e predatório.

Seus namorados, contava-os como companheiros amáveis ou adversários amistosos; não lhe inspiravam devaneios nem desejo, e enjoava deles, se queriam romance.

Até que conheceu Irvino. A Irvino, amou, ao menos pensou que amasse, pensou desordenada.

Mas nele viu foi o homem, respirando e de carne-e-osso - seus olhos devassantes, seus largos ombros, a boca, que lhe pareceu a de um bicho, suas mãos.

Teve logo a vontade de que ele a beijasse, muito; por amor ao amor, não lhe veio a idéia de penar por ele.

Como uma vítima... De vezinha, impacientava-se, pensando nisso.

Então, o amor tinha de ser assim - uma carência na pessoa, ansiando pelo que a completasse? Ela ama para ser mãe... É como se já fosse mãe, mesmo sem um filho...

Mas, também outra espécie de amor devia poder um dia existir: o de criaturas conseguidas, realizadas.

Para essas, então, o amor seria uma arte, uma bela-arte? Haveria outra região, de sonhos, mas diversa. Havia."

Trechos de um longo parágrafo de Guimarães Rosa em Noites do Sertão.

domingo, 15 de junho de 2008

Olhar por dentro

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Foi a primeira foto que vi dele. Fiquei impressionada!

A princípio não parece existir nada demais, mas veja além. Não sei se foi por acaso mas o clique se deu no momento da bicicleta e tal. Será que é mesmo isso que chamam de sorte? Não sei...

"Em qualquer coisa que faça, deve existir uma relação entre o olho e o coração. Com o olho que está fechado, olha-se para dentro, com o outro que está aberto, olha-se para fora."

Depois dessa, alguém acha que é sorte ou que a coisa vem de dentro mesmo?






Tudo começou quando Henri Cartier-Bresson, ainda pequeno, ganhou uma câmera e ficou impressionado com as imagens.

Aí, foi pra Paris estudar arte. Depois foi à África, depois serviu o exército francês e como era segunda guerra e Adolfinho não perdoava ninguém, é claro que foi parar num campo de prisioneiros. Aí, tal, juntou um monte de caras igualmente fantásticos para montar uma agência, foi contratado por revistas, ficou famoso e tal. Aí, todas essas coisas você pode ler sobre ele no
Wikipedia e no site da Magnum.
Maravilhoso mesmo é o modo como cada elemento de uma fotografia forma todo um contexto onde o tempo pára ou melhor dizendo, onde o clique foi mais rápido que o respirar de um ser humano.




E o que acontecia ali naquele momento não importa a ninguém saber. Simplesmente basta recorrer à sua mente o que ela quiser pensar. O contexto pode ser decifrável como um quadro abstrato: você decide o que se segue.


Bresson dava um pause nas cenas cotidianas. Imagens que, a princípio, parecem normais e que, quando percebidas como um fato único daquele momento vira uma poesia visual.

A sensibilidade aqui, é essencial. E Bresson a possuía tanto que aposto que podia enxergar pelas costas para não perder nenhum movimento.

Uma vez que é perceptível as cores (não no seu caso), as formas, os objetos, a luz e o enquadramento, começa a corrida contra o tempo.

“A gente olha e pensa: Quando aperto? Agora? Agora? Agora? A emoção vai subindo e, de repente, pronto. É como um orgasmo, tem uma hora que explode. Ou temos o instante certo ou o perdemos, e não podemos recomeçar. O desenho é uma meditação, enquanto que a foto é um tiro. Você pode apagar um desenho e fazer outro, você não está lutando contra o tempo. Mas, com a fotografia, há uma espécie de angústia constante, pelo fato de você estar presente em um momento que não mais se repetirá. Mas é uma angústia muito calma”.



Depois dessa explicação que ele deu, não sei mais o que escrever.
Mas aqui tem esses links interessantíssimos que me inspirei para essa postagem, vale a pena ler:


E ouvindo Portishead enquanto digitava, apareceu essa frase nos meus ouvidos.
Algo meio que, digamos, bressoniano.

“Take a ride, take a shot now.” (Portishead)



domingo, 8 de junho de 2008

Happines is a warm gun.


O que estamos fazendo afinal?
O mundo tá acabando, economicamente, politicamente, humanamente, sei lá!
Acordo na espera de ligar a TV, o computador como se fosse companhia.
As vezes evito ler algum livro ou ouvir alguma música para não chegar ao lado mais emocional do cérebro.
Estou evitando alguma coisa. Será?!
Não.
Eu estou mais. Fiz um furinho em mim mesma e tudo q é bom sai de mim, para os outros, para o mundo.
 
Estou tentando sorrir mais. Nunca deixei de ser feliz. Mas acreditem, já escondi sorriso.
 
Na euforia de tentar parecer fria, intuitiva e quieta, deixei de aproveitar algumas risadas, alguns amores, alguns chocolates, algumas amizades.
 
E agora, vivendo outra euforia, pego a warm gun e atiro em tudo aquilo que só atrapalha a ocorência de grandes sorrisos.

domingo, 18 de maio de 2008

Sons da Primavera.

  A cultura oriental nem sempre foi muito explorada em geral. Porém, este ano temos a oportunidade de nos aprofundar no conhecimento da arte japonesa. Não é difícil encontrar eventos culturais relacionados. Em abril, fui até a Caixa Cultural no centro de São Paulo para apreciar um evento musical gratuito que fazia parte do projeto de 100 Anos da Imigração Japonesa no Brasil.
Era o espetáculo Haru no Umi (Mar de Primavera).


  Assim como eu esperava, encontrei instrumentos tradicionais como o shamisen e o koto, e pude conhecer as músicas infantis e folclóricas do japão. Esta apresentação trouxe dois grandes artistas: Camilo Carrara e Tamie Kitahara.

Camilo Carrara                                                                                          
  

Violão de nylon, violão de aço e arranjos.

Formado pelo Departamento de Música da USP, Carrara faz a ponte entre o universo da música erudita e popular.

Lançou em 2004 seu primeiro CD solo, Canção do Sol Nascente, com 24 arranjos de canções tradicionais japonesas para violão.

Coordena a área de cordas dedilhadas e violão clássico do Centro de Estudos Musicais Tom Jobim (Universidade Livre de Música), em São Paulo.


Tamie Kitahara

Koto, Shamisen e Voz.

Estuda koto desde a infância e shamisen há 25 anos, tocando peças do repertório erudito e do folclore japonês.

Estudou shamisen no Brasil e aperfeiçoou-se no Japão, na escola Ikuta Ryu Seiha.

Dedica-se à formação de alunos, principalmente de crianças e jovens.

Teve a honra de apresentar um grupo de crianças tocando koto para o Primeiro Ministro do Japão, Junichiro Koizumi, na ocasião da sua visita ao Brasil em 2004.

É membro da Associação Brasileira de Música Clássica e presidente do Grupo Seiha Brasil de Koto que realiza anualmente apresentação de koto, shamisen e shakuhachi.

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  E sobre os instrumentos, Koto é uma espécie de harpa horizontal com treze cordas que podem ser de seda ou nylon afinadas através de trastes móveis e que permitem a mudança de afinação durante a execução da música.
  O corpo é formado por duas pranchas de Kiri, com aproximadamente 180 centímetros, formando uma caixa de ressonância.
  Aqui tem um vídeo com a própria Tamie explicando brevemente sobre o instrumento.

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  O shamisen é um instrumento com três cordas tocadas com palheta e com um caixa de ressonância que passou a ocupar o lugar do Biwa, antiga balalaica japonesa usada nas músicas narrativas.
  Possui uma sonoridade potente e é muito utilizado nas músicas que acompanham os teatros Bunkaru e Kabuki.

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  Além da parte musical, o palco improvisado no saguão da Caixa Cultural foi ornamentado com alguma ikebanas e a Tamie usou roupas tradicionais.

  Essa apresentação me fez sentir sono. E durante esse dorme-não-dorme, imaginei um espaço aberto com sakuras na primavera e crianças correndo.

  Essas crianças tinham os olhinhos bem fechados assim como os meus na hora das musicas, assim como os da minha mãe, assim como 90% da platéia: idosos japoneses imigrantes.De repente, uma música agitada começou.

  O senhor que estava atrás de mim começou a cantar junto e todos batemos palmas como se estivéssemos num barco fugindo de um Japão em ruínas rumo à um Brasil pronto para novas misturas.

A música dos pescadores.

sábado, 10 de maio de 2008

A história do circo por mim mesma


Fui ao Cirque du Soleil faz algumas semanas. Alguns são contra, alguns ficam fascinados e alguns tem dinheiro. Dessas categorias, eu sou a fascinada.

Desde pequena, assistia os espetáculos com a minha mãe na HBO. E há uns três anos atrás, lembrei-me desse super-circo e decidi ir atrás de dvds e músicas.

 

http://www.flickr.com/photos/blackdisel


Fora todo aquele negócio comercial que é uma droga, ver esse circo pra mim foi uma grande experiência.

Não digo que exista só esse, cada companhia tem sua peculiaridade e beleza e acho que também vale muito a pena ver.

Bom, e para minha surpresa, ano passado, pela primeira vez, estavam aqui com o Saltimbanco, um dos mais antigos da companhia. (E com a popularização, dvds mais baratos. Ê!)

Por ser um dos espetáculo mais antigos, é o que chega mais próximo do circo tradicional.

Dizem por aí que surgiu na China, e quando se diz que algo surgiu na China é porque faz muito, muito tempo.

Alguns números como, por exemplo, o de acrobacia, era treinamentos para guerreiros. Podemos ver claramente através dos movimentos: pular dando cambalhota, chutando o ar, etc.

Na história do circo, boa parte vem do mundo oriental e surgiu através de crenças e atos do cotidiano.

A partir daí, certos passatempos e certos esportes começaram a se personalizar como um ato que exigia concentração, superação e até beleza de movimentos.


As apresentações eram feitas em lugares públicos para que todos pudessem ver as habilidades e bizarrices.

Claro, porque o circo virou o lugar onde encontrava-se pessoas bizarras que faziam coisas bizarras. Anões, mulher-macaco, gêmeos siameses, dominador de leões, equilibrista de uma perna só, hipnotizador de cobras...

http://www.flickr.com/photos/12622904@N03/


Vamos rir e nos distrair, vamos ao circo! Vamos ver coisas bonitas, animais sendo domados, vamos ver aquela gente bizarra, comer pipoca e cachorro quente, e ouvir a velha banda com seu velho rufar de tambores.

(Só não sei como surgiram os palhaços, mas há aquela velha metáfora de que por trás do palhaço há um homem triste e por trás desse por trás, deve haver uma história.)

Então, a fama do circo espalhou-se pelo mundo como a nova forma de entretenimento e foi se adaptando a cada novidade, a cada atração que surgia, de acordo com o que o público queria.


Aqui no Brasil, de acordo com o que li num site, o circo havia chegado com os ciganos. (Sabe-se que o circo é muito relacionado a sua cultura.)

"O palhaço brasileiro falava muito, ao contrário do europeu, que era mais mímico. Era mais conquistador e malandro, seresteiro, tocador de violão, com um humor picante."

Hoje, o circo tem outra fase: o circo moderno.
Por exemplo, o Cirque du Soleil, que é uma das muitas companhias de circo existentes no mundo, tem uma tendência muito grande para o lado artístico teatral, musical e visual.

Algumas coisas mudaram.
O uso de animais não é mais permitido e é muito fácil aprender a arte circense em escolas.
E você, pequeno ser comum, não precisa ser um bizarro para entrar nessa brincadeira!

http://www.flickr.com/photos/leenda_k/

E essa é a história do circo muito mal contada.
Mas tem esse site aqui que vale a pena ler:
http://www.arcadovelho.com.br/Circo/HISTORIA%20DO%20CIRCO.htm

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Muito o que pensar nesse feriado: Tirar os Dentes?


Hoje foi um típico dia de feriado: não fiz nada. Quem ficou de me ligar não ligou, então não teve cinema com direito a guaraná de máquina. Mas também, não corri atrás de ninguém. Fiquei aqui lendo livro na cama, no sofá, na poltrona, no tapete...

Hoje foi um típico dia de feriado: solitário mesmo em família. Na hora de comer junta os três a mesa e depois cada um se enfia num canto da casa e cai na sua própria morbidez que só um feriado pode trazer.

E assim vai uma tarde. Nada pra pensar. Só uma coisa me incomodava...

Mas de resto, é aquele chove não molha mas que faz frio. É aquele pôr-do-sol laranja avermelhado e é aquela saudade de abraço grande com o braço grande do meu homem grande.
É vontade de tomar chocolate quente até ter overdose.
Mas é só vontade. A verdade é que só bebi água e chá.

No final da tarde, não choveu mais: fui comprar comidinhas.
A caminho pensei em escrever esse texto. Mas ainda sim, a tal coisa me incomodava

Pães, bisnaguinhas, rosbife, queijo, uma barra de chocolate milka. "Moça, arredonda o valor com balinha de hortelã, por favor."
Os mocinhos da padaria sempre cordiais: foi para um deles, o que me atendeu, que gastei meu sorriso de agradecimento com um pouco de ternura (precisava dar um sorriso de ternura).
As vezes, ninguém ouve minha voz baixa mas vê meu sorriso que, modéstia a parte, é perfeito.

Na volta pra casa aquela coisa que me incomodava veio á tona: tiro ou não os dentes do ciso?
Essa questão pré-traumática ficou tanto na minha cabeça que nem comi.

Então me sento aqui e ouço Lucy in the sky como se tivesse 64 anos lembrando dos 18 com ternura, só que dessa vez sem sorrir. (Com 64 anos ficar mostrando os dentes sem os 4 juízos? Não...)


Só fica no olho aquele brilho de quem de repente sente falta dos dias agitados com os amigos. Deve ser o frio que dá essa sensação de ausência a todo momento. E nem está tão frio...

Não tenho mais em que pensar. Pensar no amor é respirar a todo momento. Pensar nos amigos é comer chocolate. Pensar na dor é pensar em dor física, tipo dor de dente. Porque dor que é dor de verdade, que é aquela que dá no fundo do peito, não se comenta, só deixa passar.
Pensar no quê, agora? E então, bruscamente decido: não vou tirar os dentes do ciso!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Música Moderna


Eram, mais ou menos, dez horas da manhã do dia anterior ao anterior de hoje. Dia de sol e vento fresco. Não gelado, fresco.

A bela vista que tenho do nono andar se resumia em resquícios de prédios perdidos na poeira poluída acumulada durante apenas dois míseros dias de correria e muito trabalho.

Mas eu não estava olhando para a bela vista. Olhava outra janela, com duas abas. Uma janela que continha, do lado de quem vê, cidades construídas por letras. Me aprofundava dramaticamente na leitura. Daquelas que você espreme o olho de tanto devorar páginas e páginas.

Estava ali, debaixo dos lençóis, apoiada no travesseiro, segurando o livro como se fosse um filho meu quando um som passou por barreiras de poluição, algumas janelas e alguns andares, atravessou a pequena rua sem saída e invadiu meus ouvidos, meu olho espremido, minha leitura!

Foi chegando de fininho, ouvia bem baixo o estranho ruído no meu ouvido direito (mais que no esquerdo). Veio assim, como quem não pede permissão e já vai invadindo corpo e alma.

Era um sax, talvez. Não conheço bem instrumentos, mas sei bem apreciar. E eu estava gostando, tocava bem, o estranho! Quem seria esse intruso musical?

E como que de repente, o som estava ali de segundo plano e eu com as minhas letras, profundas. Como se o som parasse pra eu ler. Mas não parou esse tal de sax. Quem seria esse intruso musical?

Ainda perdida nas letras, o som da britadeira lá fora. Mas de novo um ruído me atrapalhando. "Será possível? Que diabos estão quebrando?"
E a reforma do sétimo andar? Tão destruidora que parece que martelam em cima de nossas pobres cabeças. E um som de jazz lento que parece mais um blues agitado que vinha não sei de onte. "Quanto barulho!"

Ou seria música?
De repente volto ao consciente. "Cadê as letras?"
Perdi meu filho-livro nos lençóis!

"Cadê meu livro?" ................. "Deixa pra lá!"
Fiquei admirando o armário em minha frente, mas com o olhar longe. Longe até os ouvidos.
Quanto som, barulho, ruído e esse tal de sax! Quem seria esse intruso musical?
Quem seriam?

E todos juntos lá de fora gritaram "Isso é o que chamamos de música moderna!".


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