segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Ubachuva - parte 2

Para relembrar, aqui está a Parte 1.

 A caminho de Paraty avistamos, em plaquinhas ao longo da estrada, um restaurante chamado Cantinho da Titia. As plaquinhas anunciavam comida caseira, cachaça caseira, doces caseiros e café quentinho. Ficamos curiosos mas um pouco desconfiados e passamos reto.

Chegando em Paraty, uma confusão. Tudo cheio e tudo chuvoso e a visão de dentro do carro era desanimadora.

 

Mas mesmo assim, resolvemos dar uma chance pra Paraty e dar mais uma volta. Só que a chuva continuava e engrossava cada vez mais. A visão que me ficou na cabeça foi a clichê Veneza brasileira: o rio invadindo a cidade.

 

Como estávamos já desanimados e não vimos nada que nos fizesse realmente ficar ali, pegamos a estrada de volta. Aí a fome foi chegando e com aquele “friozinho” e aquela chuvinha, deu vontade de uma comida bem caseira e bem feitinha.

Então, ao longo da estrada, avistamos mais propagandas daquele tal de Cantinho da Titia: “Comida caseira”, “Café da tia” entre outras atrações que eu considerei como imperdíveis!

Entramos com o carro. Ali no fundo avistamos uma casinha bem simples onde, na frente, havia uma varanda enorme cheia de mesas. Fomos recepcionados por milhares de beija-flores que rondavam aqueles potinhos de água com açúcar que ficam pendurados. Uma cena encantadora que iluminou meu dia chuvoso.

Fomos muito bem recebidos pelas tias simpáticas. Pedimos logo de cara o prato que vem galinha cozida e a fome foi só aumentando.

Enquanto esperava o prato chegar, dei uma volta pela propriedade e encontrei na lateral da casa, as galinhas e galos que virariam comida. Do outro lado da casa, mais ao fundo, uma pequena horta. As mesas ficavam num espaço grande que mais parecia um quintalzão. Nesse quintal tinha um forno a lenha. Que delícia! E gatinhos passeavam pelo local e ás vezes paravam pra fitar os beija-flores, o que era difícil pois esses passarinhos são muito rápidos.

Quando meu maravilhoso suco de laranja chegou, sentei na mesa e me deparei com duas folhas escritas pelas tias. As transcrevo aqui:

 

“Carta de Agradecimento

Esta é uma carta de agradecimento aos fregueses do Cantinho da Titia, aqueles que nos deram a primeira oportunidade. (…) Pessoas que não se importaram com a simplicidade do nosso cantinho.

Minha irmã mais velha começou o Cantinho da Titia. Ela vendia broa de fubá nas margens da rodovia. Depois nos mudamos pro lado de cá, mas funcionávamos precariamente porque não havia energia. As coisas melhoraram pra nós depois que a luz chegou. Então unimos a vontade de trabalhar com a ajuda do governo e de vocês, que nos dão a melhor parte.

(…)

Esta não é uma história de grandes sucessos e feitos, mas de luta por uma vida com dignidade. A vida agora não é mais tão penosa. Não dependemos tanto da lavoura, não precisamos mais explorar a mata. Plantas, animais e árvores estão sendo preservados. Esta mata é para nós, extensão do nosso quintal. Estamos vivendo em harmonia com a natureza.

Escrevi estar carta não para apelar, mas para agradecer a vocês. Eu não sei muito bem, mas acho que isso é distribuição de renda. O governo nos deu a vara e nós aprendemos a pescar vocês que nos ajudam a termos uma vida mais digna.

Muito obrigada

     assinado a faladeira e todas as titias

            Zenaide, Gercina e Maria”

 

 

 

“Querido freguês, 

Para nós do Cantinho da Titia, é um privilégio a sua presença aqui. Nós somos uma família e trabalhamos em três irmãs, duas cozinheiras e uma faladeira.

Nossos pais chegaram aqui em 1957, antes da construção da Rio-Santos. Junto com mais 54 famílias, migraram do Espírito Santo e de Minas Gerais. Minha mãe, hoje com 79 anos, conta como era a vida.

Aqui era uma terra desabitada e andava-se horas dentro da mata para se chegar a Paraty. Era comum esbarrar com uma onça atacando galinhas. Os jacús, pássaro grande e barulhento, comiam no quintal com as galinhas. As pacas, tatus, quatis, tamanduás e codornas do mato eram tão comuns que qualquer criança sabia que bicho era. Hoje se caminha horas dentro da mata para ver alguns bichos.

Quase não trabalha-se mais na roça. Mudamos os nossos hábitos, plantamos o suficiente e preservamos mais a natureza porque as pessoas que vem aqui gostam da mata. Não derrubamos mais as árvores e hoje vivemos do que vendemos aqui. Por isso você também está contribuindo para a preservação da natureza da região mesmo sem perceber.

(…)

Aqui é uma reserva federal criada em 1972. Vivemos em um verdadeiro paraíso, privilégio de poucos no mundo. Nos sentimos como parte da fauna e flora brasileira, a protegemos e somos protegidos por ela. Esta mata que você está vendo está praticamente intacta. No nosso sítio não mudou muita coisa desde que nossos pais chegaram aqui.  Quando alguém me pergunta se eu planto alguma coisa, eu digo que não, pois a natureza já plantou há muito tempo. Eu me sinto apenas uma guardiã para as futuras gerações.

    Obrigada pela sua preferência.”

 

Achei boa a idéia de escrever isso e deixar em cima das mesas para que todos lessem. Nota-se que foi feito com simplicidade mas com intuito de mostrar uma história digna. Percebe-se o esforço e o carinho que essa família coloca no seu trabalho.

E isso foi muito bem percebido pela comida que acabara de chegar. Saindo fumacinha, impregnando o ar com aquele cheirinho de comida fresca e bem feitinha. A comida estava uma delícia!

De barriga cheia, ainda ficamos mais tempo conversando com as tias. Conhecemos seus sobrinhos que estavam por lá ajudando. Umas gracinhas, crianças lindas. Não é trabalho infantil, mas sim férias na casa da titia. Ajudam com vontade. Certamente, se não quisessem não seriam forçados. Simpáticos e prestativos, anotaram os pedidos, sorriram, conversaram.

Depois as tias nos mostraram os doces, ofereceram o café a lenha, indicaram cachaças.  Meu pai, apreciador de bebidas que é, se interessou. A tia disse que a produção daquela cachaça fica ali perto, falou como se chega lá. Não pensamos duas vezes: compramos uns docinhos de doce de leite, agradecemos a hospitalidade e partimos.

Seguindo a estrada, entramos numa estradinha de terra que nos levou a dentro pela mata até chegarmos num sítio. A chuva havia dado uma trégua e o sol ensaiava tímido uns poucos raios.

Ali, num sítio chamado Cabral, é produzida a cachaça Coqueiro, que dizem ser a legítima pinga de Paraty. Sua produção mantem os moldes artesanais de se fazer cachaça. “Segue rigorosos padrões de higiene e controle em todas as etapas de produção, desde a colheita e moagem da cana-de-açúcar, a decantação e filtragem do caldo de cana, a preparação do mosto, a fermentação e a alambicada, aproveitando-se o chamado "coração" da destilação, ou seja, desprezando-se o produto inicial (a chamada "cabeça") e o final (o chamado "rabo", "cauda" ou "água-fraca").” ¹

Logo que chegamos, já nos convidaram pra mostrar o processo de produção.

A moagem da cana.

Depois da moagem, a cana é decantada e filtrada e em seguida adiciona-se no caldo da cana nutrientes naturais.

Em seguida o caldo é fermentado - o legal é que não é usado nenhum aditivo químico no processo. Quando atinge certo ponto, o caldo está pronto para ser enfim destilado.

A cachaça é engarrafada e aí é só tomar!

Há também a fabricação de cachaças curtidas em ingredientes especiais como maracujá, laranja, coco, etc.

Depois de termos visto todo o processo, chegou a hora da degustação. Conversa vai, conversa vem e acabamos levando garrafinhas de pinga pra todos os parentes!

Eu nunca tinha visto um processo de destilados e achei interessante compartilhar isso aqui. Acabei achando na internet o site da cachaçaria.

Cachaça Coqueiro                                                                                                 

No site, está a história dessa marca. Uma história que carrega o segredo da produção de muitas gerações fazendo assim, algo tradicional.

De barriga cheia e pinga tomada, novamente, seguimos viagem. Logo que entramos no carro, começou a chover. Dei risada. Aquela chuva estava querendo me dizer alguma coisa. Algo que só fui descobrir no fim da viagem.

¹ http://pt.wikipedia.org/wiki/Cacha%C3%A7a_Coqueiro

(Aguardem o Ubachuva – parte 3!)

sábado, 31 de janeiro de 2009

Ubachuva - parte 1

Minha temporada de férias em Ubatuba resultou em nada mais, nada menos que chuva! Certamente não é a atração mais esperada de lá mas todos sabem que vão vê-la. Os banhos de mar foram poucos, menos ainda os de sol. Mas, para a minha surpresa, minha viagem foi totalmente aproveitável!

Como na maioria dos dias, a chuva era bem fininha e não atrapalhava muito nas saídas de carro. E foi assim que começou a jornada. Surgiu a sugestão de conhecer Praia da Almada com esperança do sol sair. E fomos.

Pela rodovia Rio-Santos, próximo da divisa São Paulo-Rio, mais ou menos no km 12, ao sair da rodovia, pegamos a estrada da Almada. Cheia de curvas acentuadas, descíamos e subíamos pela trilha com direito a barrancos imensos que nos mostravam vista para o mar.

Com o tempo daquele jeito, o clima era assustador! Para receber turistas, um totem feito de sucata logo no ínicio da estradinha sorria sarcasticamente dando boas vindas.

Depois de mais ou menos 4 km naquela estradinha, chegamos, finalmente, na praia da Almada. Para mim, exclusivamente naquele dia, estava mais para desalmada.

O clima da vila de pescadores era tranquilo e... molhado. Descemos do carro. Certamente, pensei eu, a praia, mesmo chuvosa é agradável, mas...

O tempo chuvoso e o vento forte desanimaram meus companheiros de viagem e eu. Os meninos do quiosque foram totalmente simpáticos, mas... decidimos não ficar ali. O mais engraçado é que a medida que íamos voltando as pessoas iam chegando. Só faltava o sol sair!

Voltamos para a rodovia principal naquela animação: e agora? Vamos voltar pra casa? Então decidimos ir até Paraty, já que estávamos bem próximos. No meio da estrada, e ainda naquela animação, vimos uma placa interessante.

Não custava nada conhecer a tal da Cahoeira de Escada e a chuva tinha cessado. Foi uma surpresa! A água vem lá do alto e com muita força corre pelos degraus da encosta abaixo. Uma estátua se exibe numa pedra enquanto os vistantes vão de um lado a outro da cachoeira através de uma pequena ponte, balançando suas câmeras digitais.

 Como parte do Parque Estadual da Serra do Mar, a cachoeira recebe apoio do Núcleo Picinguaba, órgão que ajuda a manter as belezas naturais da região de Picinguaba, que fica na divisa São Paulo-Rio.

Na beira da cahoeira, há uma rústica lanchonete em que o proprietário, junto com sua mulher e seu filho, preparam maravilhosos lanches de lingüiça. A paisagem ficou gravada na minha memória como surreal: a cachoeira ao fundo, agressiva, barulhenta, banhando sua estátua assustadora em contraste com aquela pequena lanchonete e umas poucas mesinhas de plástico.  

A fumaça que vinha da chapa de sanduíches deixava o lugar com aspecto misterioso. Quando a fumaça se dissipou, ao fundo da lanchonete avistei uma placa e li: "Aqui reúnem-se caçadores, pescadores e outros mentirosos." Arregalei os olhos. Depois fitei o proprietário que, naquele momento, esquentava as lingüiças. De relance, fitei a estátua misteriosa. Então, para afastar o ar sombrio daquele dia, fui até o balcão e pedi um sanduíche!

Um sanduíche maravilhoso! Ele prensa o pão com queijo e com a lingüiça com uma chapa de ferro e tudo fica delicioso. E a lingüiça é de qualidade, daquelas que você sabe que só pode ter vindo de um cultura caseira. Depois do sanduíche, um bom gole de café esquetado a lenha completou a refeição. Ao sair, me virei e só então reparei na placa.

 De barriga cheia e hipnotizados por tanta água, entramos no carro. Começou a garoar, como se São Pedro tivesse cronometrado nosso passeio fora do carro. Pegamos a estrada rumo a Paraty e seguimos viagem...

sábado, 10 de janeiro de 2009

Desamores

     Debruçada na varanda, ele me abraçava, me envolvendo. Não éramos ninguém menos que amantes errantes. Saboreando a chuva, sentindo toda sua presença em mim, comecei a ter um desejo imenso: o de cozinhar para ele! Não sou uma exímia na cozinha, mas achei que pudesse fazer algo simples e saboroso.

   Mexendo lentamente o spaghetti para não quebrar, a fumaça de água fervente foi subindo pelo meu colo, se arrastando acima, pelo meu pescoço, atingindo a lateral do rosto, se emaranhando, já morna, nos meus cabelos presos. O silêncio era comunal de uma cozinha, apenas se ouvia o tilintar de tampas de panela. O macarrão escoando a fervura da água ralo abaixo como se fosse queimando garganta adentro, me impedindo de falar qualquer coisa sentimental que pudesse nos levar à um passado remoto. O macarrão al dente depois de despejado na travessa recebeu o molho. Devagar passeando pelo seu corpo esguio, transformando em vermelho o que era branco. Paixão?

   Então eu o vi ali, sentado na mesa, com aquele sorrisinho meio de lado, os olhos brilhando, fixos em mim. Apenas o servi, não o fitei. Mas de soslaio segui seus movimentos. Pegou rapidamente o garfo e se pôs a comer. Depois de enrolar os fios loiro-ruivos em seu garfo, levou-o lentamente em direção à boca como se fosse um gesto sagrado. Abriu a boca, não muito mas o suficiente. Alguns fios se soltaram do garfo e bateram na parte inferior de seus lábios. Ele piscou forte assim que sentiu a quentura. Depois rapidamente o spaghetti foi inserido para o inteiror de sua boca e um gemido de satisfação saiu. Foi alto e curto e me fez sentir orgulho de mim mesma. Um raio forte ecoou no céu e nossos suspiros se tornaram curtos por dois segundos.

    Servi o vinho que se esparramava pela taça assim como a chuva se esparramava pelas terras do mundo naquele momento. O líquido ia acariciando as curvas da taça até cansar de balançar pelas suas extremidades. Algumas pequenas bolhinhas se formaram. Sem formalismos, ele pegou a taça (como quem pega um copo de cerveja) e tomou dois goles grandes. Senti que o vinho desceu sua garganta abaixo, rasgando, mas de forma sútil. Assim como eu o tratava muitas vezes.

    Pratos sujos, talheres cruzados, camisa branca manchada com o sangue macarrônico. Os botões foram abertos lentamente, um a um. Passos errantes, bocas desencontradas, e a luz apagou-se.

    Amanheceu. Ainda chovia mas percebi que ele havia ido embora. Vi que bebeu uns goles de café do dia anterior e saiu. Fiquei imaginando o que pensaria sua mulher ao ver a mancha de molho em sua camisa. Mas lá fora, já com o sol saindo, ele tiraria a camisa, jogando-a pra um mendigo. Da mala, tiraria uma camiseta limpinha, daquelas que se usa em almoços familiares de domingo, e vestiria. Ao descer do ponto de ônibus perto do apartamento dela, compraria flores. Aquelas que eu nunca cheguei a receber. Arrumaria o cabelo, tocaria a campainha. Sorriria ao ver seus olhos, tão limpos quanto o céu azul daquela manhã.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O furo da bolha para 2009

"Amor, paz e dinheiro todo mundo deseja, todo mundo quer."

   

    Faltam algumas horas para mudar o calendário. Daqui a pouco será outro ano. Para alguns isso não faz a menor diferença. Para outros, é motivo de simpatia, de mudar de vida, de tudo! Diria que estou pendendo para o lado daqueles que gostam de fazer seu "fechamento anual". Não que eu acredite nessas simpatias ou que eu leve muito a sério esse rito de passagem, mas acato o final de ano como uma oportunidade de rever os acontecimentos da minha vida.

    O ano, por mais rápido que passe (ou por mais devagar que passe), tem inúmeros acontecimentos que não devemos deixar passar em branco. A maioria deles são pequenos e nem percebemos que, de alguma forma transformam alguma coisa em nós. Mas eles, talvez, sejam os mais importantes. Felizmente, percebi o efeito de um deles.

    Todo o estresse cotidiano me tornou cada vez mais egoísta fazendo com que eu me relacionasse com total falta de harmonia com as pessoas. Um estalo, num dia, de repente, se fez na minha humilde cabeça e levantei querendo mudar: cumprimentei o sol, os passarinhos, a poluição... Passei o dia todo sorrindo, manti toda a calma e a paciência que deus me deu, tentei ser correta e esclarecida. E assim, mais ou menos, se sucede até hoje. Em parte, funcionou. Me tornei mais leve e consegui lidar melhor com as pessoas.

    Até aí, tudo bem. O mais difícil foi perceber que por mais que eu me esforce, muitas pessoas não estão nem aí pra serem mais corretas, mais sorridentes e comunitárias. Mais difícil ainda foi perceber que eu não faço esforço nenhum para ajudar essas pessoas à acenderem esse espírito dentro delas. Não é uma ajuda mútua continuando assim cada um dentro da sua própria bolha.

    Sim, eu sei que cada um tem seu jeito de ser. Uns são mais simpáticos e prestativos que outros. Outros são mais conservadores e quietos que uns. Mas não digo que temos que mudar o que realmente somos. Isso deve permanecer na bolha. O problema é que nesse mundo, tem milhões de bolhas que pensam em contruir um universo próprio dentro delas. E não é bem assim.

    Você que está lendo, sei bem que está nem aí. Sei bem que você está mesmo é planejando sua própria vida e esqueceu das pessoas e do mundo a sua volta. Respeito muito esse seu planejamento e não acho errado. Pode continuar na sua bolha, mas não esqueça de que, além dela, tem um mundo enorme pra ser encarado, vivido e compreendido.

    Reclame sim da corrupção no governo do país, das pessoas que jogam lixo no rua, da fome mundial, da má educação, dá má distribuição de renda. Reclame muito e continue planejando apenas a sua bela vida.

    Para 2009 recomendo que quebramos um pedacinho da nossa bolha e deixamos o ar maravilhoso da vida corrupta entrar. Sem deixar nossos planos pra trás, mas sem deixar também a vida em comum para trás.

    Amor, paz e dinheiro todo mundo deseja, todo mundo quer! Desejar e querer isso é fácil. Só vamos conseguir isso se cumprirmos o básico que é respeito e sinceridade.

   Desejo a todos muito bom senso, paciência e calma, sentimento de luta e sentimento de ajudar o próximo.

 

sábado, 1 de novembro de 2008

Momento de transição.

"O que sentimos, não o que é sentido,

É o que temos.

Claro, o inverno triste

Como à sorte o acolhamos.

Haja inverno na terra, não na mente.

E, amor a amor, ou livro a livro, amemos

    Nossa caveira breve."


Ao renascer pela manhã, vi um sol leve e uma brisa fresca bater. Não queria mais nada! Sozinha, coloquei uma Ella Fitzgerald de fundo e tomei meu café da manhã filosófico. 

Pensando nas coisas da vida, me senti tão bem quando pensei sobre como estava me sentindo naquele momento e em como estou me sentindo nesses tempos e concluí que me sinto completa.

A completeza abrange ter paciência e uma mente consciente. E é isso que tenho aprimorado durante uns bons meses. Nessa manhã, ao mentalizar sobre as coisas da vida, percebi que esse aprimoramento está dando certo.

Não que eu tenha me educado pra chegar a isso com esforços evidentes e consideráveis. O resultado veio pela simples vontade verdadeira de mudar meu eu.                                                                                             (E é essa vontade verdadeira que deve motivar as pessoas a fazer qualquer coisa.)

Mudando, pois, eu mesma para uma cônscia mente, poderei contribuir com o mundo, me adaptar melhor ao mundo, compreender mais e assim ajudar as pessoas para que, todos juntos, possamos fazer desse mundo, um mundo melhor. (E isso não é utopia (e nem socialismo)!)

Depois de adentrar-me em tantas camadas da minha (in)consciência, lembrei-me de Alberto Caeiro - sobre não pensar em nada mesmo já pensando. Logo, pensei em Ricardo Reis e nas suas inspirações em cima do Estoicismo e do Espicurismo.

Fui atrás de informações sobre essas doutrinas filosóficas e achei um blog com muitas informações (muitas das quais nem li mas que mesmo assim vale muito a pena ler alguma coisa): http://www.silvino.blog.br/2008/06/epicurismo-e-estoicismo.html

E muito do que sempre pensei já tinha sido pensado a muito, muito tempo atrás pelos barbudos com trajes de lençol.                                                                                           A busca da satisfação pessoal, do prazer pela espiritualidade que é alcançada através do equilíbrio.

O afastar-se das paixões também tem a ver com isso. Entenda paixão como um sentimento ou emoção levados a  um alto grau de intensidade que se sobrepõe à lucidez e à razão.  (Já dizia o grande Aurélio de Holanda!)

Nem sempre é possível afastar-se das paixões. Quase nunca, talvez. Mas estou numa fase de transição e de concentração nas realizações pessoais e por isso preciso de um certo equilíbrio.

Voltando para a poesia, no momento não leio nem Alberto Caeiro nem Álvaro de Campos. O Ricardo Reis aqui é o meio.

O meio que representa, de forma positiva, uma passividade para encarar essa fase de transição. Observo, faço o que tem que fazer, mas não me manifesto. Se for sofrer, fico calada. Se for pra extravasar, tomo cuidado. Se for pra amar, então já amo e isso não se mede quanto à pessoas e coisas. (Não caberia nem mencionar isso.)

Minha hora e minha vez há de chegar mas não agora. Agora é a hora do aprimoramento.


"Quem diz ao dia, dura! e à treva, acaba!

E a si não diz, não digas!

Sentinelas absurdas, vigilamos,

Ínscios dos contendentes.

Uns sobre o frio, outros no ar brando, guardam

O posto e a insciência sua."


"No mundo, só comigo, me deixaram

Os deuses que dispõem.

Não posso contra eles: o que deram

Aceito sem mais nada.

Assim, o trigo baixa ao vento, e, quando

O vento cessa, ergue-se."

Poesias de Ricardo Reis.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Jantar a meia luz

 

To aqui de pijama de bolinha, sem saber o que postar no blog, com um cup noodles na minha frente. Me acompanham computador, laura., Philips.on e -lucas vinci. De fundo toca Buena Vista Social Clube. Agora estão todos quietos e o cup noodles não quer esfriar.

Por um momento me pego pensando... Como a vida é estranha. Por que certos fatos e experiências são necessárias? Por que é difícil segurar aquele momento de tensão? Por que choramos tanto? E por que rimos mais ainda?  Mas o mais estranho da vida é a capacidade que temos de pensar, raciocinar.  Isso não deveria ser possível e então seríamos todos como verdadeiros animais...

De repente sinto a fumaça do cup noodles passar diante dos meus olhos e desperto como que de um sonho pesado.

Agora meus convidados já estão conversando. Espero que gostem do jantar a meia luz. Espera! Acho que estão falando da comida!

Philips.on diz (21:50): era uma coisa mais crua

laura. diz (21:28): huahuahua MUITO BOM!!

-lucas vinci diz (21:42): eu axo q vc nao tem cara de qm seja boa na cozinha :S ahhaa

Realmente, pensei comigo mesma, quem faz um jantar a luz de velas com cup noodles?

O que importa? Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena, já dizia Fernando Pessoa.

E pra terminar esse jantar, fica aí uma boa música.

Tchau, deixa que eu abro a porta. Se não vocês não voltam, né?

 

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Metáfora do fim.

Homem no mar

De minha varanda vejo, entre árvores e telhado, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. (...)

Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando.  (...)

Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solidário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão.

Já nadou em minha presença uns trezentos metros; antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços.  Mais uns ciquenta metros, e o perderei de vista, pois um telhado o esconderá.

Que ele nade bem esses cinquenta ou sessenta metros; isto me parece importante; é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, e que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer... Será perfeito; a imagem desse homem me faz bem.

É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solidário com ele, e espero que ele esteja comigo.

Que ele atinja o telhado, e então eu poderei sair da varanda tranqüilo pensando - "vi um homem sozinho, nadando no mar; quando o vi ele já estava nadando; acompanhei-o com atenção durante todo o tempo, e testemunho que ele nadou sempre com firmeza e correção; (...)

Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; (...)

Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.

Crônica de Rubem Braga.

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