Chagall
Klimt
Rodin
Doisneau
Bresson
“Beijar-te e fazer sentido,
querer-te e me sentir feito um foguete
que prosseguiu subindo pra Marte,
onde te vi sorrindo…”
Chagall
Klimt
Rodin
Doisneau
Bresson
“Beijar-te e fazer sentido,
querer-te e me sentir feito um foguete
que prosseguiu subindo pra Marte,
onde te vi sorrindo…”
Este é um típico final de semana mariliense em que acordo depois das 10, meio zumbi, tranquila e alegre. Minha companheira de apê viajou no dia anterior para a casa dos pais e assim me encontro, sozinha.
Lá fora, o sol ardia. Devia estar fazendo 33°. Aqui dentro, creio eu, o calor estava mais insuportável ainda. Então a fome bateu. Passava do meio dia. Abri a geladeira: ah, não! Esqueci de fazer arroz. Tinha um teco insgnificante de queijo, um filézinho feio de frango, algumas folhas de alface. Hm, espera aí! Dá pra fazer algo muito bom…
Assim surgiu (bom, já deve existir mas deixa eu brincar, vai…) a salada mais gostosa que eu já fiz.
Corte o pão amanhecido em cubinhos, jogue azeite em cima (dá pra por orégano também) e leve no forno até ficar mais ou menos crocante. (Não me pergunte o tempo exato.) Enquanto isso, após lavar bem as folhas de alface, adicione os cubinhos de queijo, o frango desfiado e uma pequena pitadinha de pimenta calabresa. Retire o pão do forno e adicione na salada. Depois é só temperar com muito azeite, um pouquinho de sal e expremer um pouco de limão. Misture bem e prontinho!
Obs.: Nessa receita, o queio usado foi, na verdade, um queijo que trouxe de Aracaju chamado Requeijão crioulo. É um queijo com aparência bem amarelada e tem um gosto leve semelhante ao do queijo prato.
Após o saudável almoço, fui até a casa de uma alma resfriada com intuito de preparar um chá. Mas nada deu certo. E ainda mais que chá com esse calor não ia descer bem. No final das contas acabei fazendo um suquinho de limão com gengibre. Ficou uma delícia. Sirva bem gelado!
Assim, nossa saúde agradece e ao mesmo tempo nos saciamos com deliciosos pratos. Já faz um tempo que estou com intuito de tornar minha alimentação mais saudável e agora sinto que consigo colocar finalmente em prática. Já passei no mercado hoje e comprei alguns legumes e frutas para fazer mais experimentações culinárias como a de hoje.
Minha manhã solitária foi resolvida assim, com uma deliciosa refeição. O calor foi resolvido com um belo banho bem gelado. E tudo se resolve quando uma música boa está tocando. No caso, tocava Juzzie Smith. Meu novo vício musical. Ele é demais! Confiram.
“Não ao desperdício! Não ao desperdício!” É o que brada uma das faixas do álbum Zona e Progresso de Pedro Luís e a Parede, de 2001. Com um som que mistura samba, batucada e rock, PLAP conquista os ouvidos também com letras inteligentes e poéticas.
Este é o único álbum que ouvi inteiro. Mas no próprio site tem todos os CDs disponíveis pra escutar (infelizmente não dá pra baixar todos). Escutei algumas músicas de outros álbuns e só continuei gostando mais. Eles já gravaram com várias participações especiais como as de Adriana Calcanhoto, Lenine, Ney Matogrosso, entre outros.
http://www.flickr.com/photos/renerotterdam/
Além do mais, eles tem um projeto de percussão muito interessante! É a Oficina Monobloco. Tomando como ponto de partida o samba e seus característicos instrumentos, eles partem para a uma criação ampla de novos sons misturando outros estilos e novos instrumentos e dão oportunidade a novos talentos. No site do projeto é possível ouvir algumas músicas que animam qualquer dia chuvoso quando se está com saudades do carnaval.
Outra produção musical deliciosa de ouvir vem lá de Recife. É a Orquestra Contemporânea de Olinda. Conheci por acaso vasculhando um blog que acompanho -muito bom, por sinal – e logo baixei o CD. Quando ouvi me apaixonei. Com as letras das músicas e o som diferente da orquestra, logo me imagino descendo alguma ladeira de Pernambuco em direção a praia, no horário do pôr do sol e indo pra algum bar com roda de samba, cerveja e bolinho de charque. ;)
http://www.flickr.com/photos/fundarpe/
Aqui em baixo está o clipe da música Ladeira. Bom clipe e boa música!
A banda Parangolé, hoje com um mega sucesso, surgiu em Salvador em 1997. Assim como Plap e Orquestra Contemporânea de Olinda, ela mistura diversos ritmos como samba, axé e pagode.
http://www.flickr.com/photos/cmmorel/
No Rio de Janeiro, o Monobloco faz parte do carnaval de rua desde 2001.
Em Recife o Carnaval tem muitas atrações. É por isso que o carnaval lá recebe o nome de Carnaval Multicultural de Recife. Um dos muitos pólos desse carnaval, onde se destaca a Orquestra Contemporânea de Olinda, é o festival RecBeat que recebe diversos artistas de diversas localidades do mundo e que não estão necessariamente relacionados ao som do carnaval. Com certeza, só de ver a programação, esse festival é cheio de novas informações pra quem está de ouvidos abertos para novas experiências musicais. Vale a pena conferir no site do festival mais informações.
http://www.flickr.com/photos/lumocoletivo/
Mas a sensação do carnaval mesmo, presente em todas as localidades do Brasil e talvez do mundo, foi o hit Rebolation.
Pensando que eu passaria um carnaval longe de sucessos populares, me refugiei em Tiradentes (MG) com mais dois amigos. A cidade é conhecida pelo carnaval tranquilo e tradicional mas achei bem fraco os blocos de rua e suas marchinhas. Foi dada maior atenção ao palco principal, montado no meio da praça do centro da cidade, onde uma banda animada tocava as músicas de maiores sucessos. Com um chifrinho rosa reluzente na cabeça e um copo de frozen vodca na mão, dancei e cantei todos hits do verão.
Links
MySpace Orquestra Contemporânea de Olinda
Orquestra Contemporânea de Olinda Site Oficial
Rockpolar (aqui está disponível pra baixar o álbum do Plap e muitas outras bandas boas)
Sobre os blocos de rua do carnaval do Rio
Carnaval Multicultural Recife 2010
http://pt.wikipedia.org/wiki/Parangol%C3%A9 (definição de Rebolation por wikipédia. Hilário!)
É noite de sábado quando Analuz entra em profundo estado de morbidez. Seu querido tinha ido viajar e ainda não era hora dele estar de volta.
Vestindo apenas uma camiseta larga, se estira na poltrona com uma xícara de chá uma taça de vinho e liga o som. Começa a tocar automaticamente o último CD que havia escutado. O CD é da grandiosa Ella Fitzgerald interpretando maravilhosamente Imagine My Frustration. Analuz fecha os olhos e vai pra algum lugar bem distante daquela sala, daquela poltrona; Analuz agora medita, numa imensidão paralela.
Acorda, de repente, assustada. Está na mesma posição, na mesma cadeira, o copo de vinho está vazio, o CD acabou. O silêncio toma conta de tudo e que incrível!, já são 2:50 da manhã. Estranho o tempo ter passado tão rápido. Quando Analuz sentou na poltrona era 23:28. Decidiu então, passear pela madrugada.
Vestiu um shorts, prendeu os cabelos compridos, subiu na sua bicicleta e se foi. A madrugada está mais fresca agora do que durante o dia. Alguns cachorros latem, alguns carros passam mas o silêncio é que ganha espaço.
Após ter percorrido pela avenida, Analuz arrisca uma rua vazia de casas bonitas quando, ao longe, avista um carro e duas pessoas entrando nele. Parou e olhou. Achou conhecer as pessoas, mas deixou pra lá e continuou seu passeio.
Neste mesmo carro, como se houvessem mundos paralelos, está o corpo de Analuz, enroscado em outro corpo. É Analuz e um homem. Um homem que ela só vira uma vez, tomando um café na livraria da esquina da avenida. Mas ele nunca a vira; neste dia em que ela o viu, o homem estava tão mergulhado em um livro que se caísse o mundo ele não iria perceber. Mas neste exato momento os dois estão ali, como se a noite estivesse apenas começando.
Mas a mente de Analuz não está ali. A mente de Analuz passeia de bicicleta. A brisa fria bate em seu rosto e ela suavemente fecha os olhos, abre levemente a boca. “Que sensação boa andar de bicicleta e sentir essa brisa da madrugada”, pensa.
Sente, então, uma sensação parecida com a da moça dentro do carro. Se debate contra essa sensação por um instante e depois sorri. Mas logo, abre os olhos, assustada, freando a bicicleta na frente de um carro. O carro buzina e Analuz pedala correndo.
O motivo do susto foi quando se deu conta de que ela é a moça que está dentro do carro! Corre pra rua vazia de casas bonitas pra observar novamente o carro. Mas quando chega lá, não há mais carro. Que estranho…
Atordoada, Analuz volta pra casa. Ao chegar, vê em cima da mesa, uma chave de carro. Ao final do corredor, a luz do banheiro acesa. Reconhece, pelos barulhos que faz, os gestos do seu querido.
Ele a vê e a abraça, lhe entrega flores e ela sorri. Mesmo ele chegando tarde de viagem, ainda lembra de lhe trazer flores. Que gracinha! Mas Analuz sente, por um instante, um sentimento de culpa. Como se o tivesse traído…
Recusa seus beijos e abraços por um momento, mas depois retoma as idéias e se lembra de que não era ela que estava naquele carro com o homem da livraria. Ou pelo menos não era ali que Analuz deveria estar…
Solta os cabelos, tira a roupa. Enche duas taças de vinho. Coloca novamente o CD de Ella. Deixa questões de ética e surrealismos pra lá; se volta para o seu querido, sorri e diz: Pra onde vamos amanhã, querido?
Então ele responde: Vamos dar uma volta de carro?
Analuz desperta. Está na mesma posição, na mesma cadeira, o copo de vinho está vazio, o CD acabou. As roupas estão espalhadas pelo chão e seu querido dorme um sono profundo no sofá. Agora há duas taças de vinho vazias e o sol já está surgindo.
Entendo que seja muito simples criar um blog e simplesmente postar poesias dos outros, mas é isso que vou fazer hoje.
Ultimamente não tenho me encorajado pra sentar na frente desse computador e gastar algum tempinho digitando algo bom. Inspirações não faltam, mas odeio admitir que a preguiça é maior.
Minhas horas de ócio criativo (ou não) diminuíram. Sempre cheia de coisas a fazer: tarefas do lar, estudos, visitas, festas e por aí vai.
Mas hoje, coincidentemente lendo O Suicídio de Durkheim, me aparece em meu quarto uma alma com um olhar perdido. Para ajudar a pobre alma, peguei entre tantos livros, o livro do Drummond, Sentimento do Mundo. Abri em um poema que gosto e a alma então o recitou.
Fiquei com vontade de rir o tempo todo. Um sorriso de canto, daqueles de quem acha graça por ser irônico, por ser algo fantástico e totalmente maluco. Esse Drummond sabe mesmo das coisas.
Então, agora a noite me vi correndo na grama. Tão verde. E vai ficando mais verde enquanto o sol surge. As nunvens são poucas, mas bem gordas, densas e brancas. A brisa que bate no rosto é indescritível. Sinto vontade de abraçar o mundo mas não consigo.
De repente desperto com a Miu (minha gata) miando sem parar em direção à janela. Quando olho pra fora, um morcego voa rápido pra algum lugar e eu volto pra realidade.
Quantos mundos realmente existem? São mesmo mundos? Ou a idéia de mundo foi estupidamente criada por nós? Será que existe O Mundo? Ou as coisas são simplesmente partes de um todo sem que esse todo seja necessariamente um mundo?
De nada sei. Mas uma coisa existe. Um pôr do sol amarelado, rosa e laranja. Azul e branco e cinza. Existe. Isso eu vi. E se não pudesse ver, eu saberia que aquele pôr do sol estava lá, se escondendo no horizonte. Esse pôr do sol sempre estará lá. E é ele que vou seguir até encontrar o horizonte e descobrir que depois do horizonte há muitos “mundos” a serem descobertos.
MUNDO GRANDE
de Carlos Drummond deAndrade
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Há tanto tempo Analuz não via sua família e seus amigos e agora finalmente retornava. Carregava consigo toda a bagagem que a vida fora de sua cidade natal havia lhe proporcionado. Estava ansiosa. Sabia, porém, que não entraria em choque quando se colocasse lado a lado as realidades diferentes que agora separavam ela de seus familiares e amigos.
Ao chegar na capital, Analuz deu um salto de exclamação! Aquela cidade não a pertencia e nunca a pertenceu. Tantas pessoas juntas andando cada uma dentro de suas bolhas – quando se esbarravam, nada de diferença fazia. O silêncio era ensurdecedor. Só se ouvia o barulho de cada bolha se locomovendo pelos corredores da estação. E quantos corredores. Essa cidade cresceu. Mas não é um sinônimo de progresso.
Analuz de repente percebe o que aconteceu. Esse individualismo enraizou-se no coração dos homens que andam depressa – sem rumo, acreditava ela. Mas ela achou que esse fenômeno não fosse afetá-la.
Mas Analuz percebeu que todos estavam contagiados por essa doença.
E cada um se foi, seguindo distintos caminhos. E cada um se foi preocupado com seu próprio caminho. Que pena deles. Quando um caminho se cruzar com o outro, não saberão como agir, o que fazer. Será o caos. Ninguém saberá lidar com a experiência do outro, causando assim, uma imensa discórdia universal.
Precisou de um tempo pra que Analuz percebesse que a doença do individualismo estava enraizada até nas pessoas mais próximas dela…
Era horário de verão, hora do chá no jardim provinciano. Estavam todos reunidos. Para quê eu não sei. Mas parecia que o propósito era unir pessoas queridas que não se viam há muito para uma conversa descompromissada naquela tarde de chá. E tudo corria harmoniosamente bem quando Analuz teve um colapso! Ela percebeu, em instantes de segundo, que estava se sentindo perdida naquele mundo tão individualista, pois tinha sua própria bolha mas algo a dizia, naquele momento que a deveria perfurar, sair, abraçar as pessoas, gritar até ficar sem voz.
Analuz percebeu que todos ali, cada um dentro da sua própria bolha, achavam que, unidos por uma causa comum, estariam furando suas bolhas também. Mas não. O egoísmo, quando é forte, só engrossa mais a capa da bolha. E foi assim que Analuz viu que as pessoas, até as mais próximas, estão regadas de egoísmo. Andam cada uma dentro de suas próprias bolhas no meio de todos para simplesmente se sentirem como parte do todo, como se não fossem egoístas o suficiente para estarem ali na multidão. Mas de nada adiantava . O retorno à capital foi para Analuz uma maravilhosa descoberta e foi também um alerta: o egoísmo era o novo nazismo da nação.
Haviam seis mosquinhas no box do meu banheiro. Surgiram de repente. Matei três com o pano do chão e elas caíram mortinhas, uma a uma. Quando fui tomar banho, aqueles cadaverzinhos foram escorregando ralo abaixo junto com o sangue que denunciava a minha falta de gravidez. Faltavam três.
Na rua, as luzes do poste iluminavam as lojas há muito fechadas. Fechadas há mais de 24 horas se não me falham as contas. Poucos carros, quase nenhum transeunte. Caminho na direção da avenida principal. Ao longe, naquele prédio antigo, da meia porta que estava aberta avistei uma luz amarela. Ninguém à vista. Entro pelo corredor vazio, subo as escadas. Tudo escuro. Sento. O filme começa.
Me sentia estranha. Caminhando pelas ruas, as luzes do poste iluminavam as lojas há muito fechadas. Fechadas há mais de 24 horas se não me falham as contas. Barulhos. Burburinhos. As poucas pessoas, por um instante, me pareciam meros figurantes. Mas eu não era a atriz principal.
Passo em frente a um portão. Um portão de casa em meio a tantas lojas. Lojas fechadas há mais de 24 horas. Tenho certeza. Mas aquele portão… A placa indicava: Dr. Otsuki ou algo do tipo. Não lembro se era um dentista ou um oftalmologista. Não importa. Acho que era Otsuki o que estava grafado na placa de madeira pendurada em cima do portão. Um portão de casa em meio a tantas lojas. Olhei brevemente, de canto de olho, rápido, bruscamente. Mas vi, mesmo assim, a imagem. Para além do portão, avistei a rua paralela da que eu me situava.
A rua paralela da que eu me situava tem uma igreja. A única coisa alta e luminosa num diâmetro de 60 graus em relação a esse bairro. E quando dá três horas, três badaladas. Faltavam matar três moscas. E quando são três horas e meia, o sino só bate uma vez. Dá pra ouvir daqui de casa. Quando há silêncio eu conto as batidas. Uma por uma. Três moscas. Ainda vivas no box do meu banheiro.
Mas eu estava ali, na frente do portão do Dr. Otsuki vendo a igreja que ficava do outro lado da rua. Mas como? Me parecia que para além do portão não tinha uma porta concreta como tem em todos os estabelecimentos que tem um portão. Não tinha nada além do portão. A casa era vazada e dali eu podia ver o outro lado da rua. Mas o que eu via especificamente do outro lado da rua era a igreja. Perfeitamente enquadrada no portão do Dr. Otsuki.
Três moscas. O sino bate. Uma única vez. Meia hora de alguma hora havia se passado. Ao olhar pro chão encontro o trançado de canudos que nunca consegui arrematar.
Sim, nos bares sujos, na hora do tédio ou do nervosismo, escolhia um canudo rosa e um azul e os entrelaçava como uma trança de dois fios. Mas eles sempre se soltavam…
O sino da igreja que podia ser vista através das frestas do portão do Dr. Otsuki que estava em meio a tantas lojas que estavam fechadas há mais de 24 horas, tenho certeza, bateu onze vezes.
Entrei em casa. As três moscas que faltavam matar haviam sumido.